Sabrina Noivas 67 - The Wedding Trap

Uma noiva abandonada... Um padrinho sexy e milionrio!
Judy pensou que estivesse fazendo a coisa certa: casar-se com o homem que salvaria os negcios do pai. Apesar de no am-lo, aquela seria a deciso acertada! Porm, no dia do casamento, o noivo no apareceu!
Jake seria o padrinho do noivo. Em vez disso, acabou resgatando a noiva quando o amigo no apareceu na igreja! Ele ficou feliz em poder ajud-la, mas acabou descobrindo que Judy no abandonara inteiramente a ideia de se casar. Teria Jake Mason, um atraente milionrio, cado na armadilha do casamento?

Digitalizao e Correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1998
Gnero: Romance histrico contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida



Srie For Richer, For Poorer
Ordem	Ttulo	Ebooks	Data
1	Marriage Bait
Julia 939 - Planos Para Amar	Jan-19972	The Wedding Trap
Sab.Noivas 067 - Armadilha de Casamento	Jan-19983	The Million-Dollar Marriage
Bianca Dupla 698 - Quanto Custa O Amor?	Aug-1998
   



















PRLOGO

Judith Taylor sentiu a garganta seca. Tomou um gole de suco de laranja e tentou se controlar. Teria de ser o mais direta possvel.
PRLOGO
	Mame, teremos de cancelar o casamento.
Alicia limitou-se a olhar fixo para a filha.
A xcara de Jim chocou-se contra o pires, e ele, desajeitadamente, tentou limpar o lquido que derramara sobre a camisa.
	O qu? Est louca, Judith? No pode cancelar o casamento com apenas dois dias de antecedncia!
	No posso casar-me com Ben.
	Oh, pelo amor de Deus! Tiveram uma briga?  Alicia pareceu aliviada.  Querida, no fique aborrecida. Voc deve estar tensa, devido a toda a correria que antecede a cerimnia. S isso.
	Ns no brigamos. Mame, escute. Eu no...
	No. No escutarei uma palavra dessa tolice. Quer que a cidade inteira zombe de ns?
Judy engoliu em seco. Lembrou-se do vestido de noiva, pendurado no cabide, em seu quarto, dos presentes que no paravam de chegar, dos preparativos elaborados. A me odiava quando seus planos no corriam como desejava.
	Desculpe-me, mame  murmurou em um fio de voz.  Eu... No posso. No amo Ben.
Alicia estreitou os olhos.
	Ento, tem representado muito bem nos ltimos dois meses. No concorda, Jim?
Jim hesitou.
	Pensei... Tive a impresso de que gostava dele, filha. 
	Eu sei, Jim.  Judy passou a lngua pelos lbios ressecados. Como poderia explicar tudo? Desde que seu padrasto lhe apresentara Ben Cruz, sentira-se como se estivesse andando nas nuvens.
	Seja boazinha com ele  Jim dissera.  Ele est pensando em tornar-se meu scio.
Fora fcil ser gentil com o atraente e generoso jovem. Parecia que Ben estava sempre por perto, e Jim e Alicia apreciavam muito sua companhia. Para ser honesta, Judy tambm gostava das atenes que Ben lhe dedicava. Ele era muito divertido, e Judy adorava quando saam para danar e quando conversavam sobre os timos negcios que Ben conseguira fechar, desde que se graduara em Yale.
Fora romntico e gratificante ter ao lado um executivo to rico e dinmico. Talvez Judy tivesse estado to absorvida por aquela imagem que se esquecera de olhar para o homem.
At a noite anterior, quando os beijos de Ben haviam se tornado mais exigentes do que romnticos. Quando ele tentara... toc-la. A forte repulsa que sentira abalara a confiana de Judy. Uma mulher no pode se sentir assim em relao ao homem com quem se casar.
Como explicaria aquilo aos pais?
	Ben no  o homem certo para mim.
	Ben Cruz  o homem certo para qualquer mulher que consiga conquist-lo  Alicia afirmou, com voz estridente.  Voc no sabe a sorte que teve, porque no sabe nada sobre homens!
Aquele comentrio deixou Judy furiosa.
	E de quem  a culpa? Vocs me mantiveram em uma redoma de vidro naquela escola s para garotas. Eu quase nunca tinha a chance de ver um garoto, a no ser durante os bem supervisionados bailes mensais. No  de se admirar que tenha me jogado nos braos do primeiro rapaz que me deu ateno!
	Voc saiu daquela escola preparatria h mais de dois anos. Alm disso, se houvesse ido para a universidade de Georgetown, como queramos, teria encontrado muitos moos solteiros... Do tipo certo!
	No irei para a faculdade para encontrar homens.
	Oh, no! Optou por uma carreira de sucesso em arquitetura! Prefere passar todo seu tempo trabalhando na serraria, quando no precisa disso. Sabe que Jim poderia...
	Sei!  interrompeu Judy. O problema era que no queria depender do padrasto para sempre.  Mame, qual  o melhor lugar para se aprender sobre os diferentes tipos de madeira? Mesmo que eu seja apenas contadora.
	O que estou dizendo  que no temos culpa por voc no ter sado com outros rapazes. Acredite, querida, um bom marido no permite que a mulher siga uma carreira. S no entendo como no percebe isso.
"Porque no sou voc", foi a resposta que veio  ponta da lngua de Judy. Mas preferiu evit-la. No havia necessidade de criticar a me. Ao contrrio de Alicia, ela estava determinada a nunca depender de ningum.
	Quero ser uma arquiteta.
	Tudo bem! Tudo bem!  Alicia fez um gesto impaciente com as mos.  V em frente. Ben no se importa. Esse  outro ponto a favor dele. Tenha seu hobby, mas no perca essa oportunidade. Tem sorte de haver encontrado o homem perfeito.
 A voz se suavizou, e ela segurou a mo da filha.  Sabe que s desejo sua felicidade. Foi por isso que induzi Ben... Oh, no me olhe desse modo. Admito. No minuto em que o conheci, soube que era o homem adequado para voc. To educado, charmoso e envolvente! Bonito, tambm, e rico! Ele te ama,
Judy, e a proteger sempre.
	Posso cuidar de mim mesma, e no me casarei com um homem a quem no amo!
	Pare de dizer isso. No pode estar apaixonada em um minuto e, no instante seguinte, desistir de tudo movida por um louco impulso momentneo.  Alicia levantou-se, o rosto refletindo raiva e determinao.  Alm disso,  tarde demais. No permitirei que arruine sua vida e me faa parecer uma idiota s porque est com estresse pr-nupcial.
	No ...
	No me importa o que seja. No est nessa sozinha, querida. Este casamento significa tanto para mim e Jim quanto para voc. Quer arruinar nossas vidas tambm?
	Mas...  O que a me estava dizendo? Judy olhou para o padrasto, que parecia... amedrontado?
	Conte para ela, Jim.
Ele parecia relutante.
	Oh, Alicia, esse  um assunto meu e dele. Se Judy no quer...
	Judy no sabe o que quer! Conte, vamos!
	O que , Jim?  perguntou Judy, ansiosa.
	Ben disse que talvez se torne meu scio.
	Sei disso, voc j me contou.
	O que no lhe contei  que ele planeja investir duzentos e cinquenta mil dlares na companhia e... no momento, preciso desse capital.
Claro, era aquilo o que Ben fazia: investia em negcios diferentes.
	J faz dois meses que nos conhecemos. Por que ele est demorando tanto para fazer esse investimento?
	No sei.  Jim parecia frustrado.  Pensei que, depois do casamento, quando Ben fizesse parte da famlia... Mas, Judy, se voc no quiser...
	Pare com isso, j disse!  tarde demais. Judy, querida, no pode tomar uma deciso dessas s por um capricho. Vai se arrepender para o resto da vida. E afetar a todos ns.
Alicia continuou falando, mas Judy no escutava. Olhava para as faces plidas do homem que fora seu pai desde quando tinha quatro anos de idade. A me dissera: "Este  seu novo pai. Jim tomar conta de ns." E ele fizera isso muito bem. Dera-lhe amor, apoio e tudo o que Judy pedisse.
Agora ele precisava dela...
Judy gostava de Ben. Talvez a me estivesse com a razo. Devia mesmo ser um capricho de sua parte. Era natural que se sentisse apreensiva, com medo de uma intimidade que nunca experimentara.
Estavam s vsperas do casamento. Tudo estava preparado, a cerimnia, a recepo... S faltavam dois dias.
Judy olhou para o padrasto, de novo. Jim parecia derrotado. Impotente.
E ela, Judy, tinha duzentos e cinquenta mil dlares nas mos e recusava-se a entreg-los a seu querido Jim.

CAPITULO I

Jake Mason ocupou seu lugar no carrinho de golfe, olhou para o relgio de pulso e deixou escapar uma imprecao. A cerimnia seria em Elmwood, Virgnia, uma hora distante de Wilmington, onde estava.
	Precisamos nos apressar, caso contrrio chegarei atrasado
quela droga de casamento.
	Droga de casamento?!  Scot Harding dirigiu at o buraco nmero dezessete do Clube de Campo Overland.
	Para mim, todos os casamentos so uma tremenda bobagem  Jake afirmou, com desdm.
	Tem algum trauma?
	Isso mesmo. Bem... nem tanto assim. O problema  que podem contagiar. Scot riu.
	Sei o que quer dizer. Ainda mais sendo voc um homem rico e, portanto, desejado. Tem a qualidade ideal para os dias de hoje. Alm do mais, ser padrinho do noivo. Entendo por que esse tipo de festa no lhe agrada, meu caro.
	Assim que assinar o livro e cumprimentar o casal, irei embora. Ser padrinho no significa que precisarei ficar na festa, distribuindo ateno para os demais convidados. J avisei Ben de que dispensarei todas as honras de minha funo. Alm disso... voc sabe.
	No quer fingir diante de todos que  o melhor amigo dele.
	Ora, o que  isso, Scot? O jovem salvou minha vida!
	Por Deus, homem! Isso aconteceu h dez anos! Achei que j houvesse lhe retribudo o favor.
	Um favor desses nunca se paga.
Jake estremeceu ao lembrar-se das lanternas acesas de um carro, em alta velocidade, surgirem de repente na curva, quando ele se dirigia ao refeitrio da faculdade. Ben Cruz, que saa naquele mesmo momento, jogou-se sobre Jake, e os dois se estatelaram no cho, longe do carro desgovernado. A julgar pelo impacto do automvel contra o prdio, Jake conseguiu escapar da morte. Dando um longo suspiro, continuou:
	Eu no estaria vivo se no fosse por Ben.
	E ele no teria o melhor amigo que um abusado pode ter. No foi voc quem pagou as dvidas dele quando os fiscais o perseguiam? Aquele sujeito est sempre metido em apuros.
	 mesmo, mas sempre interessantes. A faculdade no teria sido a mesma sem Ben.  Jake sorriu, lembrando-se dos tempos de estudante.  Ele sempre foi muito divertido.
	E voc sempre esteve ao alcance dele. Diga-me: quantas vezes o encontrou desde que terminou a faculdade?  Scot pegou seu taco e seguiu Jake pelo campo.
	Algumas.
Scot deu um sorriso sarcstico.
	Em todas em que Ben precisou de dinheiro. Pelo menos duas vezes, pelo que sei.
	 verdade.  Jake simulou uma jogada com seu taco. 	Ben nunca teve muita habilidade para lidar com dinheiro.
	Quer dizer, trata-se de um perdedor nato.
	Mas  muito bom nisso  Jake completou.  Nunca deixou de esboar aquele largo sorriso ou de dar uma boa desculpa pelo fracasso. E um jovem muito positivo. Um rapaz empenhado.
	Todos os embusteiros so assim.  Scot meneou a cabea. 	E voc sempre permitiu que o enganasse.  uma vtima dele. Imagino que tenha a ver com seu complexo de culpa.
As sobrancelhas de Jake se arquearam.
	Complexo de culpa?
	Com certeza. Como todo aquele dinheiro caiu em suas mos enquanto tantas pessoas nada tm? Graas a Deus, todo o ouro dos Mason est seguro, muito bem aplicado, ou ento voc acabaria dando-o a algum necessitado.
	Cale-se!
	A verdade di...  Scot encarou o amigo.  Tem de admitir, Jake. Ben Cruz  um patife, e voc, um ingnuo. No compareceu  festa de despedida de solteiro dele, mas aposto o que quiser que a financiou.
Jake no respondeu. Limitou-se a sorrir enquanto colocava a bolinha na marca e media a distncia.
No tinha a mnima inteno de contar a Scot o que quer que houvesse financiado. Mandara entregar o presente de casamento, um cheque de duzentos e cinquenta mil dlares, na festa de despedida. Atrasara o envio do presente de propsito, at pouco antes da data. Queria ter certeza de que Ben estaria se casando com a filha de seu scio em potencial, um homem com trinta anos de experincia em construo.
Uma esposa e um bom scio em um negcio promissor endireitariam Ben. Era a hora de ele se acertar, pensou, enquanto dava a tacada.
Em Elmwood, Virgnia, Ben Cruz compartilhava a mesma ideia. Uma bela quantia, considerou, ao depositar o cheque. No tinha planos de aplicar tudo aquilo na Construtora Taylor, porm. J persuadira o sr. Taylor a receber menos. O homem estava desesperado.
"Por qualquer lado que se analise, ser um bom acordo para mim. Bastar entregar uma parte, sentar e receber os lucros, enquanto Taylor faz o trabalho. Alm do mais, o dinheiro foi um presente de casamento. E h mais um bnus: a delicada Judith." Ben saiu do banco, imaginando o corpo delicioso aconchegado em seus braos, a farta cabeleira cor de mel  altura de seu peito e aqueles grandes olhos azuis fitando-o. Naquela mesma noite. Ficou excitado s em imaginar.
Embora Judith fosse um tanto fria. Ben no estava acostumado a tanta resistncia. Suspeitava, s vezes, que os Taylor a estivessem negociando.
No, corrigiu-se. No podia ser. Judy gostava dele, no gostava? Tinha de gostar! Depois de tantos galanteios e jantares... Judy gostava de danar tanto quanto ele. Ben sabia o que ela apreciava e o que a fazia rir. Sempre fora gentil com a noiva. No a forava a nada. Sentia que Judy era um tipo de moa tmida e inatingvel. Naquela noite, no entanto, ele a tocaria. Mal conseguia esperar pelo sonhado momento.
Ao aproximar-se do carro, sua mente voltou  quantia ganha. Pagaria suas dvidas e daria o mnimo possvel para Taylor. Faltavam quatro horas para o casamento. Iria procur-lo na construtora.
Ben estacionou o carro e subiu correndo as escadas at o escritrio do futuro sogro. Viu o aviso, antes mesmo de se aproximar da porta: "Fechado pelo Ministrio da Justia". Confuso, dirigiu-se  entrada principal. L, havia o mesmo aviso e, em letras pequenas, uma frase adicional: "Propriedade do governo americano".
Ben ficou perplexo, desnorteado, devastado. No entendia o que estava acontecendo.
Seria Taylor um traficante de drogas? No, aquilo se tratava de dvidas. Impostos.
Por isso Jim Taylor devia ter lhe oferecido sociedade. Estava falido, e o governo interferira em seus negcios.
Que sorte ter resolvido passar por ali! Tudo o que tinha de fazer agora era pagar suas dvidas de jogo e ficar com o resto de dinheiro para si. E Judy?
Bem, o mundo estava cheio de garotas sensacionais como Judith. E bem menos frias, ainda mais para quem tem dinheiro. "Como tenho agora, graas ao bom e velho Jake."
Jake tomou banho e se trocou no clube, terminando de se arrumar ainda em tempo de comparecer  cerimnia. Mas o trnsito estava terrvel, e conseguiu chegar  Igreja Elmwood apenas meia hora antes do horrio marcado.
Uma senhora que segurava pela mo uma garotinha indicou-lhe a entrada lateral.
	Sou a dama de honra  disse a menina, sorrindo para Jake.
	E  linda.  Ele segurou a porta para que elas passassem.
	Ainda no. No at que eu coloque meu vestido  a garota respondeu, virando-se para encar-lo, enquanto a senhora a puxava pelo corredor.
Sorridente, Jake foi at o escritrio do pastor, onde encontraria Ben.
Ben no estava l.
Os dois homens que ocupavam o pequeno recinto cumprimentaram-no com cordialidade. O reverendo Joseph Smalley estava sentado  mesa, compenetrado na leitura de algum texto.
O sr. Taylor, o pai da noiva, caminhava, muito nervoso, pela pequena sala e olhava para o relgio a cada instante.
Onde estaria Ben?, indagava-se Jake.
Era bvio que Taylor se perguntava a mesma coisa. Aps alguns minutos, ele pegou o telefone, discou um nmero e esperou que atendessem. Por fim, bateu o fone no gancho e, perturbado, saiu do escritrio.
O reverendo olhou para Jake.
	 melhor ver o que est acontecendo. Voltarei em um instante  comunicou, saindo, apressado.
Jake deu de ombros. Ainda faltavam quinze minutos para o casamento. Foi at a janela e olhou, ansioso, para o estacionamento, esperando ver Ben entre os convidados que chegavam.
Na sala da noiva, Alicia Taylor analisava seu reflexo no espelho, como para confirmar a perfeio do vestido turquesa e da maquiagem. Satisfeita, virou-se para inspecionar a filha. Judy estava radiante em um vestido bordado com minsculas prolas. Parecia uma princesa, e era o que seria quando Ben se unisse  famlia...
Alicia sorriu e ajeitou o vu da filha.
	Acho que no deveria cobrir tanto o rosto dela.
	No, est perfeito  elogiou Clia, a melhor amiga de Judy.  Bem, talvez possamos levant-lo um pouco. O que acha, Judy?
Judy olhou-se e piscou para a desconhecida que via no espelho envolta em quilmetros de organza.
	Fique parada  ordenou Alicia.
Judy tentou permanecer imvel enquanto elas ajeitavam o vu. Tinha vontade de sair dali correndo. O que estava fazendo naquele lugar, a ponto de casar-se com um homem a quem desejava nunca haver conhecido?
	Est linda!  A garotinha, em um longo vestido cor-de-rosa, observou-a com admirao.
	Obrigada, Dottie  agradeceu Judy, acariciando os cachos dourados dos cabelos da menina.  Voc tambm est um encanto!
	Vamos torcer para que Dottie continue assim at o momento de entrar na igreja  disse a me da garota.  Oh, aqui est o fotgrafo, sra. Taylor!
Judy forou-se a sorrir enquanto o homem disparava inmeros flashes, e a me sugeria-lhe as poses. Afinal, gostava de Ben... Pelo menos, era o que pensara no incio. S estava muito nervosa com o casamento. Depois daquela noite... Judy estremeceu ao imaginar o que aconteceria em lua-de-mel.
	Alicia, preciso falar com voc  Jim Taylor chamou a esposa, abrindo a porta.
	Agora no, Jim. O fotgrafo...
	Agora!
Como se movida pela urgncia na voz do marido, Alicia saiu, deixando os demais  espera, em silncio. Quando retornou, estava plida.
	Voc!  exclamou, olhando para Judy.  Como pde!
	Mame, o que...  Judy aproximou-se da me, preocu pada com sua aparncia transtornada,
	No se aproxime de mim!  Alicia estava furiosa.
Judy parou ante o desdm e a raiva da me. Mas, levada pela preocupao ao notar que Alicia estava rgida, arfante e parecia  beira de um ataque histrico, ela implorou:
	Oh, mame, por favor, sente-se!
Alicia afastou-se, e ento fitou as outras pessoas na sala, como se as notasse pela primeira vez.
	Saiam... Por favor, preciso falar com minha filha a ss.
Todos saram de imediato, curiosos e apreensivos.
	Ento, fez o que queria, no ?  gritou Alicia, assim que ficaram sozinhas,  Mesmo depois de tudo o que conversamos.
	Eu... fiz o qu?
	Mandou Ben embora. No negue!
	Eu mandei... Ben? Ele no est aqui?
A me balanou a cabea. A pulsao de Judy se acelerou, vacilando entre a catstrofe, o alvio e o xtase. Tudo aquilo em um milsimo de segundo. Ben no estava ali. No teria de se casar com ele!
	E a responsvel por isso, Judy! Posso ver em seu rosto. Voc o rejeitou.
	No, no fiz isso. Nunca...
	Mas ir se arrepender, garota. Quando penso nas despesas... Na humilhao! Meu Deus, como olharei para as pessoas l fora?
Judy encarou a me, tentando compreender o que ela dizia. Ben no havia chegado? Por qu? No dissera nada a ele que pudesse... Tentou lembrar-se de algo.
Na noite anterior, durante o ensaio, o noivo no agira de modo suspeito. Na verdade, mostrara-se muito bem-humorado.
	Mame, talvez seja apenas um atraso  tentou tranquiliz-la.
	No. Ele se foi. Diga a ela, Jim.  Alicia abriu a porta para o marido entrar.
	Ele se foi, Judy  confirmou o padrasto.
	Foi? Mas para onde? E por qu? Ben pode no estar aqui, mas...
	No est aqui e no vir.  Jim parecia mais confuso do que revoltado.  Ele saiu da cidade, Judy. Tentei encontr-lo, mas o telefone foi desconectado. Ento, fui at o apartamento. Ben partiu. Sumiu. O zelador disse que nem sequer deixou um endereo de contato.
	No precisa se fingir de surpresa, minha jovem. Voc o manipulou, no ?  Alicia olhou para a filha, acusadora.  Depois de prometer. Depois que resolvemos no cancelar o casamento, fez com que Ben o fizesse.
	Me, eu nunca disse uma palavra a Ben para que pensasse...
	Por qual outro motivo ele partiria? Aposto que voc insinuou para ele tudo aquilo que nos disse h dois dias. Posso at imagin-la: "No amo voc de verdade. Voc no  o homem certo para mim.  melhor cancelarmos o casamento"!    
	Mame, nunca. Juro que no disse nada.  Judy se sentia magoada com a injustia das acusaes.
	Deve ter dito ou feito alguma coisa. Por qual outro motivo ele partiria?
Por qu?, perguntou-se Judy. Ser que, inconscientemente, dera alguma indicao de como se sentia? Ser que seu comportamento reservado o afastara? Talvez Ben houvesse percebido.
	Agora se lembra, no ?!  Alicia esbravejou.  Mas vai se arrepender, madame. Pelo resto de sua vida!
Jim colocou um brao sobre os ombros da esposa.
	Querida, no culpe Judy. Ela est aqui. Foi Ben quem... 
	No! Foi ela. Ouviu o que disse no outro dia, e agora...  Virou-se para a filha.  Sabe o que fez? Voc nos envergonhou perante toda a cidade. Humilhou-nos! Oh, meu Deus!
No posso aguentar isso!
Alicia atirou-se em uma cadeira, desconsolada.
Como pde? Depois de tudo o que fiz por voc?
	Mas eu no disse nada para Ben. No disse.  Judy olhou para o padrasto, sentindo uma ponta de culpa. Ser que Ben percebera o que ela no confessara?
Sua me estava quase histrica.
	Deus nos enviou um anjo, e voc o repudiou! Nunca a perdoarei! Nunca! Como pde?
	Vamos, Alicia. No culpe Judy. Seja razovel  interferiu Jim.
Mas Alicia no estava em condies de dar ouvidos  voz da razo. Soltou todo seu veneno sobre a filha, dizendo-lhe palavras amargas que feriam-na.
Quieta, Judy apenas escutou, at que Jim tirou Alicia da sala.
	Temos de falar com os convidados, querida. Explicar a eles. Judy ficou sozinha, o corao disparado, o corpo trmulo, sacudida por um turbilho de emoes conflitantes. Vergonha. Alegria. Alvio. Culpa.
No precisaria casar-se com Ben.
Convidados... A me estava to envergonhada...
Fora ela quem provocara aquilo? No era sua culpa. Ou seria? Seu crebro parecia prestes a explodir. Talvez devesse tomar uma aspirina. Cambaleante, caminhou at a poltrona onde deixara a bolsa e, com as mos trmulas, tirou um frasco de dentro dela.
O pastor voltou para informar a Jake que o casamento fora cancelado.
	Cancelado? Por qu?
	O noivo...  O reverendo Smalley hesitou, como se no encontrasse palavras adequadas.  Por algum motivo, ele no foi capaz de comparecer.
Jake recebeu a notcia com ceticismo. Conhecia Ben.
	No foi capaz ou no quis?
O pastor admitiu que parecia que o noivo havia deixado a cidade.
Jake ficou confuso. O que Ben estaria tramando? Tentou entender. Sim, ele se recusara a entregar o cheque a Ben at que houvesse confirmado que existia a empresa Construes Taylor e, sim, lhe dissera que receberia o dinheiro s aps o casamento.
O pastor meneou a cabea.
No entendo. Ele veio ontem  noite para o ensaio e agora saiu da cidade. Sem aviso. Pobre Judy... Esse foi um golpe terrivel.  uma garota to doce! Na verdade, a famlia toda. No entendo.  uma pena!
Jake tambm no entendia. A moa no devia ser to doce assim para Ben desistir do casamento e de um acordo que lhe traria estabilidade. Decerto, ele nunca tivera a inteno de se casar Fora s uma trama para conseguir alguns trocados. 
	Sim. Uma pena. - Jake fez meno de sair da sala. 
	Espere. No v embora. Tenho certeza... -O reverendo fez uma pausa, incerto. - Quero dizer, est tudo pronto, no hall social. Todos os convidados... Estou certo de que nao cancelaro a recepo.
	Obrigado.	
No havia necessidade de ficar. Jake no conhecia nmguem e no tinha a mnima inteno de consolar quem quer que fosse Droga! Todos os preparativos, os convidados.. Ele saiu da sala pensando na garotinha que seria a dama de honra. Estava to feliz e orgulhosa! E agora...
Parou ao lado de uma porta aberta e assustou-se ao ver uma mulher erguer um frasco em direo  boca. A noiva! Lia ia...
	No!  Jake adiantou-se depressa e tirou o frasco das mos de Judy.  Ele no vale isso.
Judy olhou para Jake, com um olhar atormentado.
	Tire-me daqui! Por favor!

CAPITULO II

Jake hesitou, mas apenas por alguns segundos. A ansiedade falou mais alto que a discrio. Ali estava uma mulher  beira do suicdio.
Judy no lhe deu chance de se arrepender. Segurou a cauda do vestido em um brao e puxou Jake com o outro, em direo ao hall. S ento parou, parecendo incerta.  Por aqui  disse Jake.
Podia, ao menos, lev-la para casa. Judy no estava em condies de enfrentar a multido de convidados. Ela o seguiu, escada abaixo, at o estacionamento. Por incrvel que parecesse, no encontraram ningum no caminho. O mais provvel era que os convidados, surpresos, curiosos e solidrios, estivessem na recepo. E o salo social deveria ser do outro lado da igreja.
Jake suspirou, aliviado. No desejava ser visto fugindo com a atrao principal.
Olhou para a noiva, sentada a seu lado, no carro. Era, sim, muito doce. Na verdade, adorvel. Mais uma vez, imaginou o que acontecera a Ben. Quem sabe, ela no era o tipo dele. Parecia inocente como uma criana envergonhada por haver sido pega brincando com o vestido de algum. Jake teria achado engraado se no estivesse sentindo uma enorme pena dela. E se no estivesse no meio de um terrvel engarrafamento. Olhou para o carro ao lado do dele. A mulher que o dirigia acenou, os olhos brilhantes. 
 Parabns!
Jake retribuiu o aceno com um movimento de cabea. Assim que pde, entrou em uma rua menos movimentada e parou o carro.
	Tire o vu!
	Oh!  O comando pareceu despert-la. Judy obedeceu e o jogou no cho do carro, com descaso.  Desculpe-me  disse, olhando-o como se o visse pela primeira vez.  Estamos parecendo...
Recm-casados felizes.  Jake sorriu, tentando aliviar a tenso.
	Sim.  Judy no retribuiu o sorriso.  Perdoe-me por t-lo agarrado daquele jeito. S queria sair de l, e voc entrou...  Examinou-o, notando as roupas formais.  Voc foi ao casamento!  o melhor amigo de Ben? Joe... No: Jake, Jake...
	Jake Mason  ele completou, lembrando-se das palavras de Scot, naquela manh.  E estranho ser intitulado o melhor amigo de Ben quando se sabe muito bem que no  assim, Voc seria o padrinho. Meu nome e Judith Taylor. Sabe o que aconteceu? Onde est Ben? Por que...  Judy parou de falar, notando o desconforto de Jake.  Claro que voc no sabe. Estava esperando na igreja, assim como eu. Desculpe-me se o forcei a me resgatar.
No tem problema.  Jake inclinou-se, analisando-a.  Voc est bem?
Judy notou a ansiedade na voz dele e corou. Sentia pena dela, assim como Clia e todos os seus amigos. Enquanto ela estava feliz por Ben no ter aparecido' A sensao de sufocamento que a acometera nos ltimos dias havia se dissipado, e agora podia voltar a respirai' tranquila. Queria danar e gritar e cantar...
	Quer que a leve para casa?
	No!  Judy calou-se com medo de haver gritado. Ainda no estava pronta para enfrentar a me com suas recriminaes.  No quero ir para l.
Para onde, ento?  Toda a ateno de Jake estava concentrada nela. Ainda estava ansioso.
Judy fitou-o, tentando pensar. Poderia ir para a casa de Clia, mas aquele seria o primeiro lugar onde a procurariam. Olhou para baixo.
Esqueci minha bolsa na igreja!
	Quer que eu volte? Posso...
	No.  Aquele era o ltimo lugar onde Judy desejaria estar.  Minha me a encontrar. Eu s estava pensando em ir para um hotel, mas no tenho...
	Dinheiro no  problema, mas sim seu vestido. Todos iro imaginar...
	Bem, se puder me deixar em casa, ento  disse ela. Mas parecia to confusa e indefesa quanto um gatinho acuado, e Jake no podia abandon-la.
	Podemos ir para meu barco.
	Voc tem um? No se importaria?  Judy tropeava nas palavras.  Assim me daria um tempo para pensar. Tudo bem?
	Claro. No estamos vestidos para navegar, mas...  ele brincou, pondo o veculo em movimento.
	Espere!  Judy virou de costas para Jake, apontando para a cintura.  Esta cauda  encaixada aqui. Se voc pudesse solt-la...
Jake fez o que ela pedira, e Judy enrolou a cauda em uma trouxa, junto com o vu. Ento, desceu do automvel e, enquanto duas mulheres observavam, abismadas, jogou tudo em um cesto de lixo na calada.
Jake ficou confuso. Judy j no parecia mais magoada ou  beira do suicdio. Tampouco um gatinho acuado. Estava no comando!
Entretanto, sua atitude mudou durante o longo e silencioso percurso at Delaware. Quando chegaram s docas, o olhar perdido estava de volta, como quem pergunta: "Para onde irei agora?".
Aquelo cortou o corao de Jake. De certo modo, sentia-se culpado pelo que acontecera. No importava o quanto Ben o havia enganado, mas sentia-se mal por ter criado condies para ele enganar aquela jovem inocente.
	Que idade voc tem?  perguntou ao entrar no estacionamento do clube de iatistno.
Completarei vinte e trs anos no prximo ms.
Apenas uma criana, Jake pensou, enquanto a conduzia pela doca quase deserta.
Judy estava entorpecida, ainda tentando entender o que acontecera para enfrentar as consequncias. Mesmo confusa, porm, teve capacidade para se admirar com a embarcao. No era um simples barco, mas...
Lgico! Tratava-se do amigo de Ben, um colega de Yale. Ben o ajudara em muitos negcios. Deveria ser to rico quanto ele, Judy pensava ao descer os estreitos degraus. Foi conduzida at o quarto, pequeno, mas que dava a iluso de luxo e espao. Jake dirigiu-se ao corredor, e Judy ouviu quando ele abriu e fechou algo que parecia a porta de um armrio.
	Acho que encontrar ali tudo de que precisa  disse ele ao voltar:  Gostaria de comer ou beber algo?
Judy balanou a cabea, desejando que ele sasse. Tudo o que queria era afundar o rosto em um daqueles travesseiros e se esquecer de tudo.
	Tudo bem.  Jake parecia inseguro.  Bem, se precisar de alguma coisa...  Abriu a gaveta do armrio embutido.  Eu sabia! Mel deixou algumas coisas. Se quiser se trocar...
	Obrigada.
Jake olhou-a, mais uma vez, e ento fez meno de sair. Virou-se e apontou para o telefone ao lado da cama.
	Talvez seja melhor avisar seus pais.
	Nada disso.
	No precisa dizer onde est. Diga a eles que est bem.
	Certo.  Mas Judy no se moveu.
	Imagino que no queira preocup-los.  Jake esperava, como se no pretendesse sair enquanto ela no telefonasse.
Judy sentou-se na cama, obrigando-se a pegar o aparelho. Discou.
Me, estou...
Judy! Onde voc est?  Alicia mostrava-se agitada e zangada.
	Estou muito bem.
	Onde voc est?
	Com um amigo.
	Quem? Onde? Jim ir busc-la.
	No.  Olhou para cima, para o homem que permanecia em p junto  porta.  Gostaria de ficar mais um pouco.
	Judy! Precisamos resolver tudo isso! Precisamos encontrar Ben e...
	Telefonarei mais tarde. At mais.  Judy desligou o telefone e se virou na direo da porta, que estava fechada.
Jake sara.
Deitou-se na cama. Se, ao menos, pudesse descansar por alguns instantes para pensar...
Quando Jake bateu na porta, uma horra depois, no ouviu resposta. Abriu-a com cuidado e entrou. Judy estava deitada, dormindo um sono profundo.
Os raios de sol invadiam o cmodo pela pequena janela, colorindo maravilhosamente o campo de viso. Judy ainda usava o vestido de noiva, e as perolinhas brilhavam como estrelas. Os cabelos, liberados da grinalda, caam como uma cascata dourada sobre o travesseiro. Porm, foi o rosto que atraiu a ateno de Jake. Era lindo, de traos perfeitos, nariz delicado, longos clios marcando as plpebras fechadas. Mas Jake Mason, acostumado  beleza feminina, ficou impressionado por algo mais. Ela parecia to jovem e inocente, t o vulnervel!
Jake ficou contente por constatar que Judy dormia, serena. Nada de induo por calmantes, ele j havia se assegurado disso, ao verificar o banheiro. No, era o sono de um cansao autntico, provocado pelas agitaes e excitao que antecedem os casamentos. Fechou os punhos, tenso. Tinha vontade de esmurrar Ben.
Ento, de maneira surpreendente, Jake sorriu. Judy escapara. Ela no sabia, mas fora melhor assim. Conseguiria superar aquela situao. Com muito cuidado, Jake tirou-lhe os sapatos e, depois de cobri-la com o cobertor, saiu em silncio.
Quando Judy acordou, os raios do amanhecer iluminavam o quarto. Por um instante, ficou olhando para o teto, imaginando por que... Sentou-se de repente. Olhou para baixo, analisando o vestido amassado. Mirou  sua volta. Lembrou.
A primeira sensao foi a de um alvio indescritvel. No estava casada com Ben. No teria de se casar com ele. A menos que... Um arrepio percorreu-lhe a espinha. No. No precisaria casar-se mesmo se Ben voltasse. Ben no voltaria. Jim dissera: "Sumiu... No deixou endereo para contato."
A me, lvida e furiosa, acusara: "Deus enviou um anjo, e voc o rejeitou!"
Judy sentiu um lampejo de raiva. "Eu no rejeitei! E Ben no era nenhum anjo, s um homem", pensou, tristonha.
Um soluo escapou de sua garganta. Os anjos de sua me sempre vinham na forma de um homem... "Jim, seu novo papai... um anjo que chegou para cuidar de ns".
"Ben... um anjo..." Essa ideia era to engraada! A srie de soluos se dissolveu em uma risada histrica. Judy no a conteve. Deitou-se de novo e riu muito, enquanto as lgrimas escorriam-lhe pelas faces. No conseguia parar. A risada explodia como uma manifestao de ira, frustrao, culpa... tudo o que estava contido dentro dela.
Sentia o peso diminuindo e o acesso se acalmando. Estava livre.
Sentou-se, aliviada, alerta.
Encontrava-se em um barco. Aquele amigo de Ben, Jake alguma coisa, fora muito gentil.
Judy levantou-se e comeou a dobrar o cobertor, olhando ao redor com ateno. Que iate lindo! Aquele pequeno quarto... to bonito, to espaoso! Na verdade, no era to espaoso, ela se corrigiu, analisando-o com olhar crtico. A cor contribua para a sensao de amplido, um azul-claro semelhante ao do cu e do mar, l fora. O mesmo tom revestia tudo: paredes e carpete, e transmitia a sensao de espao. Atentou para as paredes, onde cada centmetro era ocupado por um armrio. Tudo fora muito bem planejado, com competncia e bom gosto.
Judy circulava pelo cmodo, examinando cada detalhe. A viso de um ambiente bem decorado sempre a estimulava e inspirava. Conseguiria criar algo to bonito assim, com certeza. Estava cheia de ideias para transformar qualquer casa em um local confortvel e bonito. Aquele pensamento a excitou e revitalizou. Tinha vontade de comear a agir.
Mas no vestida daquele jeito, pelo amor de Deus! Ento lembrou-se de que Jake lhe dissera que Mel sempre deixava alguma coisa.
Abriu a gaveta imaginando quem seria Mel. Talvez a namorada ou a esposa dele. Onde estaria ela?
E Jake? Teria voltado para casa e a deixado sozinha naquele lugar?
No. Ou, se tivesse feito aquilo, voltaria, pois ele no a deixaria desamparada.
Judy acertou. Depois de tomar banho no pequeno banheiro e vestir um conjunto de short e camiseta, que lhe serviram como uma luva, ela ouviu uma batida na porta. Abriu-a depressa. 
	Bom dia! Voc est bem?  Para disfarar a bvia surpresa, Jake acrescentou de imediato:  Quero dizer, encontrou tudo de que precisava?
	Sim, obrigada.  Judy acariciou o tecido do short e olhou para cima, encarando-o.  Tem certeza de que no h problema?  perguntou, lembrando-se da etiqueta Armani.
Absoluta. Mel na certa se esqueceu de que o deixou aqui.
No parecia, Judy pensou. A roupa era azul-clara, como o ambiente. Com certeza, a moa, quem quer que fosse, deixava-a ali porque combinava com o lugar. O pensamento despertou uma vontade imensa de rir de novo, mas procurou cont-la.
Est com fome?
Sim!  Seu apetite voltara depois que se livrara do peso que carregava. Sentia-se muito bem!
Jake ficou meio desconcertado com aquele sorriso. A maneira como um dos cantos dos lbios se erguia, o esplendor dos grandes olhos azuis. Estava claro que Judy no era daquelas que costumava oprimir os demais com suas angstias. Admirou o jeito dela.
	Por aqui, madame.  Jake inclinou-se, em um gesto servil, ao abrir a porta.
	Este , sem dvida, o cheiro mais delicioso do mundo  Judy comentou, erguendo o nariz ao sentar-se  pequena mesa.
	Caf fresco, ovos, bacon frito e manteiga.  Jake apressava-se em tirar as torradas, que saltaram na torradeira. Em seguida, tirou o bacon do forno microondas, acrescentou os ovos batidos e o queijo para derreter.
	E tudo to adorvel!  Judy comeou a passar manteiga no po, enquanto os olhos observavam o banco em forma de U, revestido de almofadas de couro macio, e a rea da cozinha em ao inoxidvel com azulejos tambm azul-claros.
	Quem fez isto?
	Isto?
O barco. Quem foi o arquiteto, o decorador?
Jake deu de ombros.
	No tenho a mnima ideia. Por qu? Interessa-se por embarcaes?
	Adoro tudo o que diz respeito a estrutura e decorao.
	Entendo.  Jake colocou a travessa com bacon sobre a mesa e pegou o bule na cafeteira eltrica.
Judy comeou a comer, tranquila, como se no tivesse nada no mundo com que se preocupar.
	Est to bom, Jake! Eu estava faminta.
	Ento, gostou de meu iate?
	Claro,  muito bonito. Os materiais usados so perfeitos. A simplicidade d um ar de conforto, ideal para ambientes deste  tipo.  Judy continuou dissertando sobre todos os detalhes que analisou, nos quais ele nunca havia reparado.  Veja a Unha dos armrios, a iluso de espao criada pelo tom azul-claro.
	Ento  por isso que este barco chama-se Pssaro Azul  disse ele.
	Lgico! Barcos tm nomes, no ? Pssaro Azul...  Judy fechou os olhos, como se estivesse considerando.  Perfeito. Foi voc quem determinou a cor?
No. Comprei-o em uma exposio, no ano passado. Um misterioso brilho no olhar dela fez Jake imaginar o que iria dizer.
	Voc consegue pilot-lo, Jake? Sozinho? Quero dizer, parece to grande.
	Nem tanto. Lgico que posso conduzi-lo. Gostaria de fazer um passeio?
Oh, sim! Podemos? Nunca naveguei antes.  Seria maravilhoso!
Jake a olhava, encantado com o sorriso que iluminava o rosto delicado. Judy parecia uma criana excitada antecipando uma aventura fantstica.
Ento, to suave como surgiu, o sorriso se apagou. Os olhos se estreitaram, o brilho se desvaneceu, escondido pela sombra do dia anterior. A vspera... Judy havia disfarado muito bem. Quase fizera Jake se esquecer da mulher desesperada a ponto de ingerir as plulas de um frasco. A lembrana foi dolorosa para ele.
	 melhor no ir.
	Por que no, Judy?  Estava furioso com Ben.
	Preciso voltar para casa.  Judy pensava no que teria de enfrentar na volta: a revolta de sua me e o desapontamento de Jim, que contava com o investimento de Ben.
	Por qu?
Ela olhou para cima, surpresa pelo tom inquisidor da voz dele.
H coisas que preciso fazer, Jake.
Como a devoluo dos presentes com um bilhete explicativo. Seria frustrante dizer que lamentava quando no era verdade. O que deveria alegar? Incompatibilidade? No, aquilo se aplicava a divrcios. Tambm precisava ligar para Casey, seu chefe, e pedir seu emprego de volta. Aquilo seria doloroso tambm, depois da festa de despedida. Bem, s precisaria...
	Tudo pode esperar, no pode?  A pergunta e o rudo da loua sendo colocada na pia a aliviaram de tantas incumbncias desagradveis.
	Sinto muito, Jake. Fiquei aqui sonhando enquanto voc trabalhava. Onde coloco a manteiga?
Ele apontou para uma pequena geladeira entre os muitos armrios.
	E ento? No pode?  Jake insistiu.
	O qu?
	Judy, estar tudo l quando voltar, no estar? Alm do mais, seu regresso no estava previsto para breve. No pretendiam viajar em lua-de-mel ou... Meu Deus! Desculpe-me.
	No tem importncia, est tudo bem. Sobreviverei. Voc tem razo. Eu no estaria em casa se as coisas houvessem acontecido de forma diferente. Ento, se no for problema para voc, adoraria navegar. Um dia a mais no far diferena.
Tantos quantos fossem necessrios, pensou Jake, se aquilo mantivesse o sorriso no rosto dela.

CAPITULO III

Judy acompanhou Jake at o tombadilho e ficou a seu lado no lugar que ele chamava de "ponte de vo". Daquele local alto, tinha uma viso completa do Pssaro Azul. Outras pessoas estavam tambm saindo para navegar ou em suas embarcaes, sentados, contemplando o movimento. Todos, inclusive Jake, pareciam se conhecer, e cumprimentos festivos e brincadeiras ecoavam. Duas crianas, com colete salva-vdas, acenaram para Judy, envolvendo-a naquela folia.
Ela retribuiu o cumprimento, sorrindo para os pequenos. Desfrutava de um dia de descanso. No estava, como planejado, viajando por dois meses, em uma lua-de-mel com Ben. Em vez disso, iria navegar com um homem que lhe era estranho, e sentia-se to feliz como havia muito tempo no se sentia. Por qu? O motivo seria o homem ao lado dela? Que absurdo! Judy mal o conhecia. No dia anterior, atirara-se sobre Jake porque era o nico  vista. Surgira uma tbua de salvao diante do que lhe acontecera. Ajudara-a para p-la  parte da curiosidade, das recriminaes, dos embaraos. Judy nem olhara muito para ele. Apenas agarrara-o e no o soltara mais. Sem o mnimo constrangimento.
O que Jake deveria estar pensando dela? Judy enrubesceu. Forou-se olh-lo com ateno.
Jake era muito bonito. Tinha cabelos fartos e sedosos, clareados pelo sol, realando a pele bronzeada. Era evidente que passava a maior parte do tempo ao ar livre. Seus traos eram regulares, os lbios, bem desenhados, o nariz, afilado, um pouco arrebitado, contribuindo para aquela expresso de... arrogncia? No, concluiu. Simples indiferena, como se no se preocupasse com o que pensassem a seu respeito. Como se no se importasse com o fato de o agasalho que usava estar gasto, e o jeans, com algumas manchas de leo. Vestia-os com a mesma elegncia do terno bem cortado do dia anterior.
Jake estava em p, os dedos fortes segurando o leme do iate. Os olhos azuis como o cu mantinham-se atentos, concentrados em conduzir a embarcao com segurana, com destino ao alto-mar.
Ocorreu a Judy que aquele era o modo de ser de Jake. Concentrao total no momento presente.
No dia anterior, ela dissera: "Tire-me daqui", e ele a atendera, sem perguntas, sem crticas.
Naquela manh, Jake atentara para as necessidades momentneas dela: roupas, alimentao. Atendera a ambas, tambm sem comentrios. Tentou distra-la, como se fosse uma simples convidada: "Gostaria de fazer um passeio? Tudo pode esperar". O que queria mesmo dizer era: "Esquea o dia de ontem e o de amanh. Aproveite o dia de hoje.
	Bem, Judy Taylor, no poderia ter escolhido um dia melhor  Jake comentou, lanando-lhe um olhar caloroso.
	Um dia melhor?
	Para seu primeiro passeio de barco.
Judy olhou  sua volta e se deu conta de que estavam distantes do cais e navegavam em velocidade.
	Vento, tempo e gua. Um dia perfeito.  O vento despenteava os cabelos de Jake, sibilando no espao.
Judy ficou em silncio por um longo tempo, aproveitando a sensao.
	Est gostando, Judy?
	Adorando.
Era timo estar ao lado dele, com os ps descalos firmes no cho enquanto o barco flutuava sobre a superfcie da gua. Era um sentimento de liberdade que nunca tivera antes.
Tinha uma vaga conscincia de que havia outros barcos a pouca distncia do Pssaro Azul, e tambm dos prdios na costa e das casas onde as pessoas trabalhavam, brincavam, amavam e discutiam. Mas nada daquilo tinha a ver com ela. Judy estava ali.  parte. Tudo o que precisava fazer era ficar em p na ponte de vo. Sentia-se livre como um passarinho.
	Agora entendo por que o iate se chama Pssaro Azul, Jake.
	Voc disse isso esta manh.
	Certo. Disse,  verdade. Mas foi diferente. Referia-me  decorao,  cor. Engraado...  Judy riu, franzindo o nariz.
 Azul no  minha cor predileta.
	Oh! Devo mud-la?
	No. Est perfeita. Descobri hoje que ela traz o cu e o mar para dentro da embarcao.
	Que alvio!  Jake falou em tom srio, mas o olhar mostrava um brilho brincalho.
	De qualquer maneira, sei por que voc o chama de Pssaro Azul.
	Sabe?
	Sim. Aqui tem-se a impresso de que se est voando.  Judy parecia excitada e... sim, feliz.
Jake imaginou se aquilo era real. No dia anterior, vira as plulas, percebera a infelicidade dela e se desnorteara quando Judy o agarrara. E ento, ali estava ela, ignorando o episdio por completo. Seria uma atitude saudvel? Ser que deveria faz-la lembrar-se do que acontecera? Ou, quem sabe, ajud-la
a esquecer...
	Quer que eu pare para voc nadar um pouco, Judy?
Ela mirou as guas l embaixo.
	Ali?  Fez uma careta.  Muito obrigada, mas sinto-me como um pssaro, no como um peixe.
	Bem, eu no queria que voc ficasse no espao. S estava... De qualquer maneira, eu no permitiria que voc nadasse ali.
	No?
	No. H uma pequena praia a algumas milhas ao sul da costa.  quase inacessvel por estrada. Por isso,  semideserta.
	Oh, seria divertido! Mas...  Olhou para as roupas que vestia.
	Tenho certeza de que h vrias roupas de banho nos armrios.  s procurar.
Jake ficou observando-a enquanto Judy descia a escadinha. No parecia mesmo nem um pouco desesperada ou deprimida. Pensando bem, no havia motivo para trazer  tona os episdios
do dia anterior.
"Deixe de tolices, meu caro! Voc  um estranho, lembra-se?", ele ouviu a voz da conscincia. "Certo. Ser melhor para ela confessar suas mgoas a algum de confiana. Hoje  o dia de Judy ficar distante de tudo. Pode ajud-la a voar! Que tal?"
Talvez fosse aquele homem, ela pensou. Deveria ser aquele o motivo por que se sentia to feliz.
Talvez "feliz" no fosse a palavra adequada.
Confortvel. Isso! Nunca se sentira to confortvel em companhia de quem quer que fosse, em toda sua vida. Dentro do carro, com Jake, depois do desastrado desenlace, tomando caf na cozinha do barco ou em p ao lado dele na ponte.
Como Jake previra, Judy encontrou vrias roupas de banho no gabinete. Todas minsculas. Escolheu um biquini azul e branco.
Ao voltar para junto de Jake, sentia-se natural, satisfeita com o olhar de admirao que ele lhe lanou. Ficou surpresa ao ser acometida por um prazer ertico ao v-lo em uma minscula sunga, quase da mesma cor de sua pele bronzeada. Estranho... J vira muitos homens de sunga, e nunca sentira nada. Mas algo nele... o peito nu, as longas pernas musculosas, e... Bobagem.
Jake era muito direto e rpido em tudo o que fazia. Ancorara o barco, jogara no mar o bote infivel e remara em direo quela linda praia deserta. Alm disso, providenciara drinques gelados e esteiras, depois que l chegaram. Concordava com tudo o que Judy quisesse fazer. Acompanhou-a quando ela desejou mergulhar, ajudou-a a construir castelos de areia e deitou-se para tomar sol a seu lado. Aceitando seu silncio. Sem perguntas.
Talvez no fosse Jake, mas o simples fato de estar longe de tudo e de todos, o que lhe dava paz. No precisava esforar-se para agradar  me ou se rebelar contra ela, como fizera quando comeara a trabalhar na marcenaria. Tampouco tinha de fazer fora para amar Ben. Estivera to perto de despos-lo! As obrigaes haviam se acabado. Talvez fosse o alvio que a tornasse to feliz.
Judy sentou-se. Mas ainda haviam coisas a fazer: cartas, devoluo de presentes, enfrentar a me... Precisava voltar. Um certo desconsolo a acometeu. Tentando sufoc-la, levantou-se.
Jake a observou quando Judy comeou, sem pressa, a caminhar pela praia, chutando a areia. As lembranas desagradveis haviam voltado. Ele viu a tristeza no rosto dela e se sentiu impotente.
No entanto, quando Judy voltou, o rosto estava radiante.
 Estive procurando pela praia, e olhe o que encontrei.  Mostrou a palma da mo como se ali estivesse uma jia preciosa.  No  linda?
	Perfeita.  Era apenas uma concha, mas bonita e delicada, de um leve tom avermelhado.
	 um smbolo.
	De qu?
	De que este dia  um comeo, no um fim de...  Ela fez uma pausa, antes de concluir:  De algo maravilhoso.
	Exato.  Jake ficou feliz ao v-la sorrir de novo.  E ainda no terminou. Almoo! Que tal camaro fresco?
	Parece timo!  Judy ajudou-o a levar as coisas para o iate.
Quase  meia-noite, atracaram no clube de iatismo. Era o final do dia mais feliz que Judy tivera na vida. Tentou dizer isso a Jake.
	Foi to... maravilhoso!
	Ento, vamos coro-lo. Fique aqui. Voltarei em um piscar de olhos.
Judy o viu desparecer na parte inferior do iate e, enquanto o esperava, debruou-se no parapeito para apreciar a paz no-turna. As luzes da sede do clube e de alguns dos barcos vizinhos estavam embaadas pela neblina e pareciam to distantes quanto as estrelas cintilando l no cu. A escurido a envolveu como o conforto de um cobertor. As guas, batendo contra o casco, davam uma sensao de serenidade profunda.
	Aqui est.  Jake voltara trazendo uma bandeja com conhaque e duas taas. Colocou-a sobre uma mesinha entre duas espreguiadeiras.  Voc faz o brinde.
Judy sentou-se, segurando uma taa e tentando dizer algo que expressasse o que estava sentindo.
	No h uma cano que diz: "Quando voc chega ao final de um dia perfeito e se senta sozinha com seus pensamentos"?
	Fico sentido com isso. Voc no est s.
	Na verdade no, mas...  Judy mordeu o lbio.  O que quis dizer  que, quando se est junto de algum de quem se gosta,  quase como estar consigo mesmo, no ?
Jake riu.
	Obrigado... Acho que .
	Voc me proporcionou um dia perfeito. Se no tivesse...
	Esquea. Estou pronto para meu conhaque. Faa o brinde.
Judy desejava dizer algo de improviso. Queria lembrar-se do final da cano.
	Brindo ao final de um dia perfeito!
	Ao dia perfeito!  murmurou Jake, sob o som do tilintar dos copos.
Judy no estava acostumada com bebida alcolica e respirou fundo quando tomou o primeiro gole e sentiu o lquido quente aquecer-lhe o corpo.
	Voc no imagina o que isso tudo significou para mim, Jake. Foi uma espcie de alavanca.
	No me diga!
Judy sorriu.
	Nem sempre  fcil enfrentar as dificuldades.
	Voc quer falar sobre...  Jake hesitou.  Sobre o que aconteceu?
	No!  Judy no suportaria que ele sentisse pena dela e no queria pensar no que houvera.  Prefiro deixar para depois.
	Precisa de mais tempo?
	O qu?
	Para se sentir segura. Se quiser, poderemos navegar de novo amanh.
	Mas ser segunda-feira! Voc no precisa trabalhar?
	Trabalhar?  Jake pareceu surpreso.
Ela riu. Que pergunta tola! Decerto Jake no trabalhava. Apenas fazia o que os ricos faziam.
	Quis dizer... Bem, Jake, voc no ter algum compromisso?
 No. Terei uma partida de golfe na tera-feira e uma reunio em Detroit na quinta. Pelo que me consta, o resto da semana est livre. De qualquer forma, o barco est a sua disposio. A semana inteira, se quiser.
	Mas...  Judy o fitou, surpresa com o convite, e satisfeita.
Descansar naquele iate durante urna semana! Longe de tudo e de todos...  Voc no mora aqui?
No. S venho quando sinto vontade de navegar. Mas ficar em segurana, Judy. Sims mora a alguns quarteires daqui. Ele vem diariamente cuidar do Pssaro Azul e deixa tudo em ordem para mim. Direi que voc est aqui, e Sims cuidar de voc.

CAPITULO IV

Judy ficou feliz por ter aceitado o convite. Ela e Jake navegaram de novo na segunda-feira, daquela vez para um lugar diferente. Aportaram em uma vila de pescadores e visitaram um pequeno e adorvel restaurante.  Esta  Judy Taylor, Abe. Judy, este  Abe Smoley, o proprietrio deste famoso estabelecimento  Jake apresentou-os, cumprimentando o homem simptico com a mesma familiaridade com que cumprimentava os iatistas do clube.  Abe, quero que prove a ela que serve a truta fresca mais deliciosa deste lado do Atlntico, para no mencionar a torta de framboesas de Nancy.
	A torta j est quase acabando  disse o garom adolescente, filho de Abe.  Mas no se preocupe. Guardarei um pedao para vocs.
	Obrigado, Link. Sabia que voc cuidaria de ns  agradeceu Jake.
Link antecipou cada pedido, para descontentamento de um dos outros clientes, um homem de barba, casaco de l e botas
de borracha.
	Quando a realeza chega, voc no d ateno a mais ningum, no , Link?
Jake riu.
	No ligue para ele, Link. Ainda est zangado pelo ltimo concurso, quando perdeu para mim.
	Foi um golpe de sorte  resmungou o homem.
	Eu lhe mostrarei o que  sorte assim que terminar este pedao de torta.
A refeio foi tima, e Judy se deliciou cada prato e divertiu-se com as brincadeiras e piadas dos outros clientes. Ali, tambm, todos pareciam ser amigos.
Aps a refeio, Jake e o homem de barba sentaram-se em volta de um tabuleiro de damas, e todos os presentes os rodearam enquanto jogavam uma partida relmpago. As peas voavam para a frente e para trs com tanta rapidez que Judy no conseguia assimilar o que estava acontecendo, mas percebeu que Jake ganhou quando, triunfante, levantou-se sorrindo e disse:
	Quem sabe da prxima vez...
Aps o horrio de almoo, as pessoas partiram, e Jake acenou para Link.
	Venha conosco at o barco. Trouxe algo para voc.
O "algo" fez os olhos de Link se arregalarem.
	Meu Deus! Mas so Nikes! E me servem!  exclamou, experimentando o par de tnis.
	Bem, voc me disse qual era seu nmero  Jake lembrou-o.
	Sim. Magnfico! Incrvel!  Link deu algumas voltas, admirando o presente.
	Bem, vamos test-los. Veja.
	Nossa! Uma bola tambm?!  Link estava boquiaberto.  Obrigado, Jake!
Judy precisou esforar-se para manter o mesmo passo quando os acompanhou de volta ao restaurante. Foram at uma rea, atrs da garagem, onde havia uma cesta de basquete, pendurada em uma rvore. Ela sentou-se em um tronco afastado, observando, enquanto Jake jogava contra o garoto, com a mesma ferocidade com que havia enfrentado o. homem no jogo de damas. Jake jogava muito bem.
Entretanto, no tanto quanto Link, que se mostrou um verdadeiro campeo. Arremessava a distncia, sobre os ombros... E acertava todas as vezes!
Judy ficou impressionada.
	Parabns, Link! Voc  timo!
Ele sorriu, afastando uma mecha de cabelos loiros do rosto suado.
	Obrigado. Estou treinando para o campeonato deste ano. No competi no anterior por culpa da lgebra.
	lgebra?
	Fui reprovado, mas agora estou indo bem. Graas a Jake, que me ajudou. Agora, o treinador disse que vai me escalar como piv.
	Vai ficar a se gabando ou vai jogar, Link?  gritou Jake.
 Tudo bem, tudo bem! Arremesse.
Judy ficou pensando no que o menino dissera: "Jake me ajudou". Como soubera que o jovem precisava de auxlio? Como conhecera aquelas pessoas?
Talvez ela no fosse a nica que se sentia confortvel na presena de Jake. Todos pareciam gostar dele. Judy se perguntou por que aquele pensamento a deixara deprimida.
Voltaram ao anoitecer, e Jake partiu logo que aportaram. Primeiro apresentou-a a Sims, um jovem de baixa estatura e musculoso, que parecia seguro do que fazia.
 Ele vir aqui todas as manhs e todas as noites para saber se voc precisa de algo, Judy  disse Jake, antes de partir. Apontando para uma grande rea verde,  esquerda das docas, acrescentou:  H um pequeno centro comercial atrs do parque, se quiser dar uma volta. Estarei aqui em, no mximo, dois dias.
Em seguida, entregou um envelope a Judy e saiu em direo ao estacionamento.
Ela observou-se afastar-se, sentindo-se, de certa forma, solitria, abandonada.
Tentou lembrar-se de como se sentira na ponte de vo. Aquela maravilhosa sensao de liberdade e poder... Podia ir aonde quisesse, fazer qualquer coisa.
Mas no naquele exato momento. Sentia-se mais como um pssaro de asa quebrada, indefeso e impotente.
Ergueu o queixo, determinada. "Judy Taylor, voc  uma garota tola", disse a si mesma. "S porque um homem, que acabou de conhecer, partiu para cuidar da prpria vida..."
Ser que, assim como Alicia, ela dependia de algum anjo na forma de homem para salv-la durante uma crise?
No, de modo algum. Podia muito bem tomar conta de si. No que no estivesse agradecida. Jake lhe dera dois dias para respirar. Tempo para relaxar, aproveitar e pensar, naquele iate maravilhoso e confortvel, onde podia sentar-se para meditar, sem ser perturbada. "Obrigada, Jake Mason", murmurou, segurando o envelope contra o peito.
"O envelope!" Judy o abriu. Dentro, havia trs notas de cem dlares. 
Jake se lembrara de que Judy estava sem dinheiro e no tinha nada mais do que um vestido de noiva. Tambm percebera que ela no se sentia confortvel usando as roupas de Mel. At lhe dissera onde poderia fazer compras. No lhe oferecera ajuda de modo embaraoso. Apenas entregara-lhe o que sabia que ela precisava, sem fazer perguntas.
Assim como dera a Link o que o garoto tanto desejava.
Judy concluiu que gostava de Jake Mason.
Claro que o reembolsaria. Tinha reservas em sua conta bancria. Mas Jake lhe dera mais que isso. A ateno que ele lhe dedicara era todo o incentivo de que precisava para enfrentar o dia seguinte.
Judy sentou-se e comeou a pensar nas coisas que teria de fazer.
A sensao maravilhosa voltara. No se casara com Ben. Estava livre para voar. Sabia que poderia conseguir o emprego de volta, e ainda era tempo de matricular-se para o curso de outono na faculdade. Nem precisaria morar na casa dos pais. Lois, a secretria de Casey, estava procurando algum para dividir o apartamento, e Judy se dava muito bem com ela.
Caminhou pelo Pssaro Azul, examinando cada aspecto da magnfica embarcao. Pensou em sua paixo por arquitetura e decorao. Uma profuso de cores e ideias invadiram sua mente quando deitou-se para dormir, mas, enquanto adormecia, uma cor dominou seus pensamentos... O profundo azul de um par de olhos que brilhava sob o sol.
Logo aps a reunio de diretoria em Detroit, Jake partiu de avio. Quando aterrissaram em Wiknington, foi direto para o barco, surpreso com a ansiedade que sentia ante a perspectiva de rever Judy. Teria adiado a reunio de Detroit, no fosse por Cari. Encontrara Cari Shepherd, um engenheiro eltrico desempregado, no torneio de golfe PGA Masters, na Gergia. Ficara intrigado com as ideias dele para a construo de carros movidos a energia eltrica. Considerara que seria a prxima tendncia de mercado e concluiu que deveriam sair  frente dos concorrentes.
Jake no sabia em que estgio estava a construo do veculo. No controlava os negcios da Mode Motors, nem as atividades das demais empresas do Grupo Mason. Estava tudo nas mos de Cari. Conseguira que o empregassem em uma posio estratgica e, dali por diante, Cari teria de desenvolver suas prprias ideias.
Jake suspirou. As vezes, sentia-se como se sempre estivesse do lado de fora, observando enquanto outras pessoas produziam.
Seu estado de esprito melhorou quando chegou ao estacionamento do clube de iatismo. Estava ansioso por encontrar Judy Taylor. Gostava dela, de seu entusiasmo, de sua risada musical, que no fora afetada pelo que acontecera. "E uma garota corajosa", pensou, soltando o n da gravata e saindo do carro. Jogou o palet sobre o ombro e caminhou em direo s docas.
Judy o aguardava e acenou quando o viu. Era bom ter algum  espera.
Era bom ter Judy esperando por Jake.
	Bem, como foi tudo pr aqui?  perguntou Jake, subindo a bordo.
	Tudo esplndido, graas a voc.
Jake gostava do modo como os olhos dela brilhavam.
	Fico feliz que tenha gostado do Pssaro Azul.
	No s do barco, mas tambm do dinheiro.
	Como?
	No sei como explicar, mas fiquei um pouco deprimida quando voc partiu. Ento, abri o envelope e... Foi como se tivesse encontrado uma mina de ouro!
Jake sorriu.
	Que exagero, Judy!
	Foi assim que senti. Voc me disse que me distrasse e me deu condies para isso. Obrigada.
	No foi nada. Ento, aproveitou?
	 claro que sim. Primeiro, fui fazer compras. As lojas no oferecem muito, mas eu precisava de pouca coisa. Alguns shorts e blusinhas. O que acha?  perguntou, dando uma volta para que ele analisasse a roupa que vestia.
	Est tima.
O short e a blusa de tric realavam o corpo bem modelado.
	Est com fome, Jake? Temos tudo para sanduches. E caf.
	Fiz uma refeio durante a viagem, mas um sanduche seria timo.  Seguiu-a at a cozinha.
	Comprei tambm selos, envelopes e um bloco de papel de carta.
	Papel de carta?
	Eu no poderia usar o carto com o timbre de "sr. e sra. Benjamin Cruz" que eu havia mandado imprimir para enviar notas de agradecimento, no ?
	No, acho que no  respondeu Jake, surpreso por ela brincar, parecendo to  vontade com a situao.
Judy tambm se mostrava bem familiarizada com o ambiente do iate, e aquilo o agradava.
	De qualquer modo, aqueles cartes esto em casa junto com a lista de presentes, que est me fazendo uma falta enorme aqui  Judy completou, colocando os pratos e os sanduches na mesa.  Terei de enderear as cartas e coloc-las junto aos pre
sentes quando for devolv-los. Tentei lembrar-me das pessoas e do que cada uma nos mandou, mas, claro, no tenho muita certeza. Pelo menos j comecei o processo. Veja, escrevi todos estes.
Apontou para uma pilha de envelopes na prateleira.
	Escrev-los foi muito fcil. O difcil foi decidir o que dizer.
	E o que disse?  Jake parou de repente, lamentando a indiscrio. Devia ter sido embaraoso para ela justificar o que acontecera.
	Apenas que estava devolvendo os lindos presentes sem mencionar o que eram para no ser indelicada, caso fizesse alguma confuso.
	Sua me poderia ter lhe dado essa informao, no ?
	No quis incomod-la...
"Que estranho", pensou Jake.
	Escrevi que sentia muito pela mudana de planos, que apreciava a ateno, lamentava a inconvenincia... Esse tipo de coisa.
Judy serviu duas xcaras de caf e sentou-se  mesa, parecendo to despreocupada como se estivesse falando de um acontecimento banal envolvendo outra pessoa.
	Estou faminta.  Ela pegou um sanduche.
	Tambm quero um.  Jake tentava entend-la. Estaria mesmo to. despreocupada quanto parecia? E qual era o problema com a me?
	Desde que subi neste barco tenho sentido uma fome terrvel. Deve ser o ar marinho.  Judy abriu um saco de batatas fritas e serviu-se.  Liguei para meu ex-chefe e consegui meu emprego de volta. E falei com Lois, uma moa que trabalha na marcenaria. Vou dividir um apartamento com ela. E mais perto do trabalho
	Isso  timo.  Jake hesitou.  Ligou para sua me?
Qualquer que fosse o problema entre elas, a me de Judy
tinha o direito de saber onde a filha estava. Judy no era menor de idade, mas... Ela balanou a cabea.
	Mas no tem problema, Jake  afirmou, como se houvesse lido os pensamentos dele.  Escrevi para mame. Carta registrada.
	Por que no telefonou? Ela deve estar preocupada.
	Por isso mesmo!  Judy corou, parecendo um pouco culpada.  Mame fica to... excitada... E, bem, quando ela fica assim, no h dilogo e...  Fez uma pausa, olhando-o com ar determinado.  Escrevi, explicando que precisava de um pouco de espao e tempo para me recuperar do trauma. E no  mentira. No mesmo!
Estaria tentando convencer a ele ou a si mesma?
	Essa foi uma experincia muito dura para mim, entende?
	Entendo.  Pelo menos, ela parecia muito perturbada naquele momento. O que estaria acontecendo?
	Foi isso o que disse a mame.
	E ela entender?
- Ter de entender. Alicia est sempre passando por algum tipo de trauma!  Era a primeira vez que Judy soava to amarga. Hora de mudar de assunto...
	Quando pretende voltar ao trabalho?
	Assumirei na prxima segunda-feira. Pretendo partir no sbado para ter tempo de organizar minhas coisas.
	Ento ter apenas mais um dia no Pssaro Azul. O que gostaria de fazer?
	Ser que podemos ir de novo quela praia e s... no fazer nada?
	Veremos. O tempo no est muito firme.
O dia amanheceu perfeito. Navegaram at o mesmo local, ancoraram e remaram no bote inflvel at a praia de areias brancas e macias que Judy j comeara a encarar como se fosse deles. Nadaram um pouco, brincando nas ondas que pareciam um pouco mais altas que o normal, e ento deitaram-se ao sol, como haviam feito na segunda-feira.
 to agradvel aqui!  comentou Judy.
No ouvindo resposta, virou-se e notou que Jake havia adormecido. "Ele deve estar cansado. Trabalhou, viajou e veio direto para c, trazendo-me para este lugar e nadando comigo s porque pedi. Jake foi to bom para mim, e mal me conhece! E me fez muito bem. O que teria feito se Jake no houvesse cruzado meu caminho, como um daqueles anjos dos quais mame est sempre falando?"
"Pare com isso, Judy Taylor! Voc est no controle de sua prpria vida, no um homem, ou um anjo."
"Jake no tentou seduzir-me. Nem sequer tocou-me. Ele  apenas... gentil."
"Ento, no imagine coisas, madame!" Parecia algo que a me diria, o que fez Judy rir. Entretanto, era um bom conselho. Aps aquele dia, na certa, nunca mais o veria.
	Gostaria de ficar aqui para sempre.  Judy no percebeu que falara em voz alta at que Jake respondeu.
	Sinto muito, mas hoje ser impossvel.
Judy olhou na direo dele e viu que Jake estava acordado, os olhos voltados para uma enorme nuvem escura, a distncia, que se aproximava depressa.
	Droga! Deveria ter ficado atento s previses do tempo, e no a voc!  reclamou Jake, em tom preocupado.
	A mim?
	Sim, a voc.  Deu um leve belisco na ponta do nariz de Judy.  Voc atrai toda a ateno para si, sabia? Apresse-se! Vamos sair daqui.
Judy correu para o bote. Em poucos minutos, a nuvem negra havia bloqueado o sol, escurecendo o cu. Troves e raios riscavam o horizonte criando um cenrio assustador. A velocidade do vento aumentara, e enormes ondas balanavam a frgil embarcao enquanto tentavam chegar ao iate. Judy estava encharcada. E apavorada.
Ou melhor, estaria apavorada se no estivesse vendo as mos poderosas de Jake segurando os remos, vencendo a batalha contra a ventania e o mar.
	Segure isto!  A voz de Jake interrompeu os pensamentos de Judy, e ela agarrou-se  corda, segurando-a com firmeza, enquanto ele amarrava o bote ao barco, para ento ajud-la a subir  bordo.
Chegaram ao deque ao mesmo tempo que os grossos pingos comearam a cair. Era difcil manter o equilbrio, pois o Pssaro Azul estava sendo jogado pelas fortes ondas. Braos fortes envolveram Judy. Jake carregando-a no colo, levou-a at a cabine.
	Est tremendo. Tome um banho quente  disse ele.  Encontrar um roupo em algum lugar. De qualquer modo,  melhor que fique na cama durante a tempestade.
	E voc?  Ela hesitou, receosa de afastar-se dele.
	Banho quente, tambm. Voltarei logo para ver como voc est. Vou usar o rdio, mas acho que essa tempestade  sria. V logo, entre no chuveiro.
Judy cambaleou at o pequeno banheiro, onde sentiu com prazer a gua quente escorrendo pelos cabelos e pela pele.
Ao vestir o roupo, quase caiu, e ento decidiu sentar-se na cama para secar os cabelos. Curiosamente, no se sentia perturbada pelo balano violento do iate, nem pelos sons dos troves e da chuva. Todos os rudos eram abafados pela lembrana das palavras de Jake: "Voc atrai toda a ateno para si, sabia?"
Aquilo queria dizer alguma coisa, no? Talvez no que ela fosse fascinante ou bonita ou algo do tipo. Mas era claro que ele pensava nela.
Uma leve batida na porta fez o corao de Judy palpitar.
	Est vestida?  perguntou Jake.
	Sim, pode entrar.
Jake abriu a porta, conseguindo ficar em p com a habilidade de um velho marinheiro.
	Voc est bem?  Ele tambm tomara um banho e tinha
os cabelos ainda molhados. Uma mecha castanha caa-lhe sobre a fronte, e Jake afastou-a com a manga do agasalho. Era um homem muito atraente.  Est com fome?
	Na verdade, no.  Judy nem sequer pensara em comida, s em Jake. Levantou-se e pegou a sacola que ele lhe estendia.
	Bem, pode ser que sinta fome mais tarde.
	Mais tarde?
	Parece que teremos de passar a noite aqui, Judy. A tempestade veio para ficar, e acho melhor permanecermos onde estamos do que tentar sair daqui. Sem problemas?
	Voc  o capito, senhor.
	Boa garota. Dentro desta sacola h queijo, biscoitos e garrafas de refrigerante. Coloque-os naquela gaveta para no sarem rolando por a.
	Voc pensa em tudo, no ? Est sempre preparado.
	Nem tanto. No posso preparar algo quente para comermos, por causa do balano do barco. Alm disso... Ei, cuidado a!  Jake a segurou a tempo de evitar que Judy casse.
Ela se sentiu hipnotizada pelos profundos olhos azuis. Agarrou-se a Jake, tentando controlar a sensao de leveza que a invadia.
	No tenha medo  Jake a acalmou, puxando-a para mais perto.   apenas um trovo.
Trovo? Ela havia pensado que o barulho viera das batidas de seu corao.
	Est amedrontada?  Jake afastou os cabelos cor de mel do rosto dela, em um gesto carinhoso.
	No  afirmou Judy, com honestidade.
	Ficar bem aqui?
	No.  No ae ele a deixasse.  Por favor... No v. Fique comigo.
Jake hesitou.
No acho... Pode no ser uma boa ideia.
Mas havia um intenso brilho de desejo nos olhos dele. E algo mais, que a atraa como um im. Judy estendeu a mo e tocou os lbios de Jake com a ponta dos dedos.
Ele engoliu em seco.
Judy... O que quer?
Ela no sabia o que dizer. Nunca se sentira daquele modo antes. Algo se abrira em seu ntimo, algo que tinha de ser compartilhado... com aquele homem.
	Quero que me beije  pediu Judy, sem o menor constrangimento.
O beijo foi to doce, to carinhoso, to arrebatador e apaixonado que tocou a alma de Judy... acordando-a, impelindo-a, confirmando o que j sabia.
"Sim,  isto o que quero", ela pensou, enquanto Jake a carregava para a cama. Ouvia o assobio do vento, a chuva e os troves da tempestade do lado de fora. No era nada. S uma pequena demonstrao da fora do erotismo que os acometera. Uma fome passional que tinha de ser compartilhada e satisfeita com aquele homem, naquele momento mgico.

CAPITULO V

A tempestade passara. O Pssaro Azul flutuava,  preguioso, ao sabor das ondas. Lavado pela chuva, o barco, azul e branco, brilhava sob o sol matinal, que apareceu no cu limpo para iluminar o horizonte.
Judy abriu os olhos quando uma rstia de sol atravessou a janela da cabine e iluminou as paredes.
 Estou no paraso  murmurou, ainda no totalmente desperta.
No queria se mover, como se qualquer movimento pudesse lev-la para longe dali. Os braos de Jake ainda a enlaavam. Continuava tomada por aquela sensao de felicidade e pelo prazer que compartilharam.
Observou o rosto do homem adormecido a seu lado. As sobrancelhas arqueadas, como se estivesse sempre indagando algo. A curva dos lbios bem desenhados, sempre prontos para sorrir. O modo como ele fazia com que se sentisse confortvel.
Mas esse termo no descrevia o que ela sentira na noite anterior, a forte paixo que a acometera, a torrente de sensaes que pulsara dentro dela, tornando-a selvagem, faminta, audaciosa. O xtase fora incontrolvel, mas to natural quanto respirar. Jake a guiara at o auge do prazer ertico, um prazer que ela nunca antes experimentara.
Fora tudo to natural! Judy aconchegou-se mais ainda nos braos de Jake, adorando a sensao do corpo dele junto ao seu. Era perfeito. Porque... o amava? O que era que fazia tudo to perfeito? As carcias, o desejo, os toques.
Pela primeira vez, Judy entendeu. Soube por que fugira de Ben. Ele sabia o que ela no percebera: no o amava. Por sorte, Ben compreendera e agira. Judy esperava que ele encontrasse a pessoa certa.
Ela j encontrara, tinha certeza.
	Bom dia, Judy!
	Bom dia para voc tambm  respondeu ela, amando o modo como os olhos dele pareciam ao despertar: sonolentos e confusos, como se no soubesse onde estava e o que fazia ali.
	Voc... est bem?  Jake perguntou, um tanto alarmado.
	Maravilhosa.
	Tem certeza?
Judy notou que Jake estava preocupado. Com ela. Que amor!
 Voc estava...  Ele parou, como se se arrependesse do que ia dizer.  Foi uma tempestade violenta, no foi?
Judy anuiu, sorridente. No fora nada, se comparada ao turbilho de emoes que tomara conta de seu corpo.
Jake passou a mo pelos cabelos sedosos de Judy, analisando-os.
 Seus cabelos so lindes, Judy. Na verdade, voc  uma mulher linda e desejvel. J lhe disse isso?
	No.  Balanou a cabea, alegre.  Tudo o que disse foi que eu atraa toda sua ateno.
	Sim. Voc  muito tentadora.  Jake continuava passando os dedos pelos fios dourados, acariciando-os. Na verdade, no tirava os olhos deles.  Sei o que tem passado, Judy.
Esta foi uma semana muito difcil para voc. Quero que entenda que eu no quis tirar vantagem... Apress-la. As coisas saram do controle na noite passada e... Oh, droga, eu perdi a cabea!
Jake estava se desculpando pelo que acontecera, pela coisa mais incrvel que j ocorrera... a ela. No a ele.
Judy estivera pensando em "para sempre", enquanto Jake...
Como fora estpida! O modo como Jake vivia, o barco... Muito conveniente para aquele tipo de aventura. Com qualquer mulher.
Um arrepio gelado percorreu-lhe a espinha. Talvez ele fosse casado ou algo parecido. Lembrou-se de Mel. Quem quer que fosse, parecia que estava sempre por ali.
"E voc, Judy Taylor,  apenas uma aventura passageira."
	Judy, quero que voc saiba que...
	Pare!  Ela pousou um dedo sobre os lbios de Jake.
 No estrague o que aconteceu com palavras vazias.
Judy no podia culp-lo. No fora ele quem tomara a iniciativa. Nenhuma vez. Jake apenas fora gentil, salvando-a na igreja, deixando que ficasse em seu iate. No era culpa dele se ela enlouquecera e praticamente se jogara nos braos fortes, implorando e se entregando.
	Voc tem sido to bom, Jake! Esta semana, o barco e tudo o mais, significaram muito para mim. J lhe agradeci?
	Mais ou menos uma dzia de vezes.
	Bem, agradeo-lhe de novo.  Ela se afastou, levantando-se.
Pegou o roupo e o vestiu depressa.  Mas o fato  que eu disse a mame que voltaria para casa hoje. E melhor partirmos.
Jake sentou-se na cama.
	Judy, precisamos conversar.
	No. Tenho de tomar uma boa xcara de caf. E quer saber do que mais? Sei fazer uma omelete deliciosa. Quer experimentar?
Jake assentiu, sem prestar ateno. Como sempre, estava tentando entender aquela mulher imprevisvel.
	Ento, vamos l. Primeiro, o caf, mas essa ser sua incumbncia.  Piscou para Jake e escapou para dentro do banheiro.
Seu corao parecia a ponto de se partir dentro do peito, mas Judy sabia que teria de ser muito forte. No queria que Jake se sentisse culpado. 
Na cozinha, Jake preparava o caf, sentindo-se o ltimo dos homens. Tirara vantagem da fragilidade de Judy e nunca se perdoaria por isso.
Desde o comeo, soubera o estado em que ela se encontrava. Vira as plulas. Notara tambm as variaes de humor que a acometiam. Na maior parte do tempo, Judy se mostrava feliz, porm, de repente, seu olhar se entristecia. Jake tinha conscincia de que ela estava lutando para no se deixar abater e era aquilo que o atraa nela.
Na verdade, gostava de tudo em Judy. O corpo escultural, os lindos cabelos aloirados, os olhos azuis. No era, com certeza, a mulher mais bonita que j conhecera, mas Judy Taylor tinha mais que beleza: uma vitalidade e um entusiasmo que a tornavam uma parceira fabulosa para qualquer tipo de atividade. E tambm uma certa inocncia.
Inocncia... Aquela noite havia sido a primeira vez para ela.
Jake percebera. Mas aquele beijo... E Judy se oferecera com tanta naturalidade, quase implorando que ele a possusse!
De repente, um pensamento lhe ocorreu. Judy no havia dormido com Ben. Teria se guardado para a noite de npcias? Deus, como deve ter sido difcil para o pobre Ben!
Ser que Judy escolhera Jake como recompensa? Ser que tentara provar a si mesma que, apesar da rejeio do noivo, ainda era uma mulher desejvel?
Jake se aproveitara do sofrimento dela.
Judy confiara nele. Aqueles grandes olhos azuis olhavam para todos com tanta confiana... Para todos, mesmo para um canalha como Ben Cruz.
Jake suspirou. No desejara apress-la. Ela ainda no estava pronta. Claro, sentira-se atrado por Judy desde o primeiro momento. Mas sabia que ela estava vulnervel e Jake havia mantido deliberada distncia, mesmo quando seu corpo doa de vontade de possu-la.
Ento, naquela noite...
Mesmo nesse momento, Jake ainda no estava certo sobre o que acontecera.
Fora o beijo. Um erro. Aquilo acendera a chama de um fogo que estivera abafado a semana toda. Nunca conseguiria t-la soltado aps aquele beijo.
E Judy se agarrara a ele, to faminta, to desejosa...
Jake estava acostumado a mulheres que iam para sua cama de livre e espontnea vontade, mas com Judy fora diferente. De certa forma, tambm fora a primeira vez para ele. Como se fosse to inocente e confiante quanto Judy. Havia sido mais do que sexo, muito mais. Uma verdadeira unio de mentes e almas.
Porm, havia apenas uma semana, a mente e a alma de Judy pertenciam a outro homem. E agora...
Jake pensara que a noite anterior havia sido to importante para Judy quanto fora para ele. Mas notara a dor nos olhos azuis quando ela se afastara, naquela manh, quando se tornara indiferente.
Ser que se arrependera? Pensara em Ben?
Jake tinha de contar a ela que tipo de homem era seu ex-noivo. Mas como abordaria o assunto? O prazer que sentira seria o tpico apropriado para aquela manh. No teria cabimento lembrar de um amor passado e perdido.
E por que Jake se sentia to constrangido? As manhs seguintes nunca o haviam abalado. Por que aquela estava sendo to difcil? Parecia-se com um colegial aps sua primeira experincia.
E por que a srta. Inocente estava agindo como se tais experincias fossem rotineiras para ela? Judy s tinha uma coisa na cabea: os ingredientes para a omelete.
	Eu sabia  disse ela, olhando para dentro da geladeira. Acabou o queijo ralado. Ainda temos salsinha.
Judy continuou falando enquanto picava os temperos. Falou de tudo o que lhe ocorreu. Se parasse de falar, comearia a chorar. A noite passada ao lado de Jake fora maravilhosa e no queria estrag-la com sentimentalismo tolo. No choraria.
	Aqui est, senhor, como prometido  disse ela, colocando a omelete no prato de Jake.  Diga a verdade: no  a melhor que j experimentou?
Jake fechou os olhos, saboreando.
	timo! Voc poderia trabalhar como chef no restaurante de Abe.
	J tenho um emprego, obrigada. Tenho muito a fazer neste final de semana para poder comear minha nova vida. Ento, coma esta omelete e vamos levantar ncora, capito!
	Certo. S que...  Jake hesitou.  Antes precisamos conversar, Judy. H algo que quero lhe explicar.
Judy sentiu o corpo se retesar. Jake iria pedir desculpas. No suportaria aquilo.
Voc amava Ben Cruz?
O alvio foi to grande que Judy quase riu.
	No. No mesmo. E depois...  A noite anterior havia
lhe mostrado o que era o amor, mas no poderia confess-lo a Jake.  Percebo agora que nunca o amei de verdade.
Mas pensou em. se matar. Aquelas plulas...
Daquela vez, Judy no pde conter o riso.
	Foi isso o que pensou? Por esse motivo tirou os comprimidos de minhas mos?  Meneou a cabea.  Eram aspirinas. Minha cabea estava a ponto de explodir, e pensei...
	Mas se no o amava...  Os olhos azuis estavam mergulhados nos dela, inquisidores, intensos.  Por que pretendia se casar com ele?
	Por dinheiro!
	Oh...  A resposta foi cruel e deixou Jake chocado.
	Ben estava pensando em entrar para o ramo da construo, e meu padrasto pediu que eu fosse gentil com ele.
"Ser gentil com Ben. Casar-se com ele. Por meros duzentos e cinquenta mil dlares de meu dinheiro? Jesus!"
Ben  muito rico, sabia, Jake?
 mesmo?
Judy assentiu.
	Minha me ficava dizendo como eu tivera sorte em conhec-lo, que ele era um timo partido. E...  Judy fez uma pausa. Seria injusto culpar os pas. Ela ficara impressionada com Ben, no ficara?  Eu tambm sabia que era um timo partido e... Oh, por favor, ser que poderamos mudar de assunto?
Jake no queria mesmo continuar falando sobre aquilo. Sabia tudo sobre dinheiro e o que as pessoas faziam por ele.

CAPITULO VI

Enfrentar a me estava sendo difcil. Alicia, em p diante de Judy, no parecia disposta a ser condescendente.	.       
	Como pde?! Como pde?!
Sem saber do que estava sendo acusada, Judy gaguejou:
	Eu s...
	Cancelou o casamento. Bem ali, na igreja, na frente de todos!
	Eu cancelei o casamento?
	Tudo estava to bonito!  A voz de Alicia estava trmula.  Oh, como pde?
	Mame, no cancelei nada. Foi Ben. Ele no apareceu, lembra?
	Voc o afastou.
	No!
	Sim! Sabia desde o incio, e voc o comprovou quando fugiu no dia da cerimnia, deixando a parte difcil do trabalho para ns.
	Desculpe-me, mas eu precisava... me afastar.  Sim, tivera de fugir.
	Foi horrvel  reclamou Alicia.  As pessoas se fingindo de solidrias em nossa frente e, ento, rindo s nossas costas.
	Mame, ningum... As pessoas no so assim.
	Voc no sabe! No estava l. No viu o risinho malicioso no rosto de Leanda Saunders! Nunca fui to humilhada em minha vida!
Alicia jogou-se no sof, cobrindo o rosto com as mos.
	Perdo.  Judy mordeu o lbio. Fora egosta, pensara s em si mesma, em seu drama particular. Divertira-se muito e nem sequer uma vez pensara nas dificuldades que a me enfrentara.  Mas... Eu nunca disse nada a Ben. No tinha ideia de que ele no compareceria  cerimnia.
Judy sentou-se no sof, ao lado de Alicia, colocando um brao sobre os ombros dela.
	Mame, precisa acreditar...
Alicia levantou-se, empurrando o brao da filha.
	Voc tentou convencer-me a cancelar o casamento dois dias antes da data, no foi?
	Tentei, mas...
	Inventou toda aquela besteira sobre Ben no ser o homem certo para voc... que no o amava!
	Tudo bem! Tudo bem!  Judy comeou a ficar furiosa.  Eu no o amava. No o amo e estou feliz pelo que aconteceu. Por no havermos nos casado. A est! Satisfeita?
	Muito!  Alicia a olhou com desprezo.  A confisso  timo remdio para a alma, no ?
	Escute, eu lhe disse que no queria me casar com Ben. Mas nunca disse isso a ele. Nem ao menos insinuei.
	Garota esperta! Mesmo assim, conseguiu demonstrar seus sentimentos, assustando-o, no ?
Aquilo magoou Judy. Talvez a me tivesse razo. Era possvel que os atos valessem mais do que mil palavras. O silncio da filha pareceu aumentar a fria de Alicia.
	Oh, ele entendeu seus sinais direitinho. Ben Cruz no  um tolo, Judy. Na verdade, creio que  o homem rico mais inteligente que jamais conhecer. Foi voc quem saiu perdendo!
	Mame, eu...
	No me venha com conversa fiada! No foi s voc quem saiu perdendo. Quando Ben cancelou o casamento, cancelou nossas esperanas tambm. Estamos arruinados!
	Arruinados? O que quer dizer com isso?
	Jim estava contando com o dinheiro que seu pretendente iria aplicar nos negcios.
	Sim, eu sabia disso.
	E sabia que, j que no se casaram, Ben no investiu?
Jim est falido.
	No imaginei que as coisas estivessem to mal.
	Os credores esto em cima de ns. O Ministrio da Justia tomou todos os nossos imveis, e Jim est enlouquecendo, tentando encontrar um modo de nos tirar desse apuro. Como iremos sobreviver? No temos nada, Judy! Nada! Jim colocou a
casa  venda.
	Sinto muito mesmo!
	Sente? Sente tanto que fugiu para desfrutar umas timas frias, no ?
	No, eu no...  Judy fez uma pausa. Fora aquilo o que fizera!
	Deixou-nos para ajuntar os cacos. Tranqilize-se, no h mais cacos para recolher, minha jovem! Mais nada! O que acha?  Alicia caiu em prantos e correu para o quarto, batendo a porta com estrondo.
Judy permaneceu imvel, sentindo-se arrasada. Culpada. Ela os colocara naquela situao. O que a me dissera tinha um fundo de verdade. Se Ben houvesse percebido como Judy se sentia...
Respirou fundo, erguendo os ombros. No adiantava chorar pelo leite derramado, mesmo tendo sido ela quem o derramara. O que faria agora? Sua me sempre fazia as coisas parecerem piores do que eram. Falaria com Jim quando ele chegasse em casa. Onde teria ido o padrasto? E o que estaria fazendo?
Quando Judy ouviu o rudo da caminhonete de Jim entrando na garagem, correu a seu encontro. Ele desceu do carro e abriu os braos.
Voc voltou! Estou feliz em rev-la. Tudo bem?  Jim perguntou, os olhos cheios de preocupao.
Oh, Jim!  Judy atirou-se no abrao protetor.
A me, em nenhum momento, preocupara-se em perguntar como Judy estava se sentindo.
	Estou bem, querido. Bem mesmo. Voc sabe que eu no queria me casar com Ben.
	Sim, ns, de certo modo, a foramos a aceitar a proposta  disse ele, enquanto ambos se sentavam no banco que rodeava o enorme carvalho do jardim.
	No foi bem assim...
	Tudo minha culpa, Judy. Eu estava to assustado com as dvidas!  Jim puxou um cigarro do mao que trazia no bolso da camisa.
	No deveria fumar, Jim.
	No fumo. S quando estou estressado.
	Como agora.  minha culpa. Mame disse...
	No acredite em Alicia. Isso estava para acontecer antes mesmo de conhecermos Ben. Tenho gasto muito dinheiro, sabe?
Alicia sempre quisera mais do Jim podia dispor.
	So os negcios  disse ele, como se houvesse lido os pensamentos da enteada.  Acho que arrisquei demais. Comprei vrias propriedades em Richmond.
	Mas... No  uma rea desvalorizada?
	Est pior agora. Entretanto, tinha uma informao de que a prefeitura planejava investir naquela regio.
	E?
	Ainda  s um boato. E o que comprei est perdendo o valor dia aps dia.
	Oh, Jim!
	Ainda tenho esperanas. Com investimento, aquela regio se tornar excelente, e aposto que algum na prefeitura logo ter conscincia disso.
Aquele era Jim. Sempre otimista.
	Espero que esteja certo.  Judy cruzou os dedos. E, quando melhorarem aquela rea, voc poder levar uma vida sossegada, querida.
	Eu?
	Tudo ser seu, amor. Mesmo antes de Cruz aparecer, eu sabia que a firma iria falir. Ento, transferi todas as propriedades de Richmond para voc, em seu nome verdadeiro: Judith Crenshaw. No so minhas nem de sua me. So suas. Entende?
	No, no entendo. Por- que iria coloc-las em meu nome?
	Porque no deve nada a ningum. At seu carro foi pago a vista. Ningum poder tirar nada de voc.
	Ainda no entendo...
	O que acharia de comear sua prpria construtora?
Judy arregalou os olhos, e Jim sorriu.
	Construtora Crenshaw...

	Eu no poderia. Jim. Quero dizer... precisaria conseguir um registro de empreiteira,
	isso  fcil. Voc pode conseguir isso com facilidade. Afinal, estudou arquitetura. Ento, j tem o bsico. Deve ter aprendido alguma coisa nos veres em que trabalhou comigo. Pesquisaremos um pouco mais, mas estou certo de que conseguir passar no teste.
Judy escutava, em uma espcie de transe, enquanto o padrasto continuava a expor seus planos.
	Pense bem, querida. Sua prpria empresa. Nada a ver com a Construtora Taylor. Serei seu empregado, e no h nada ilegal nisso. Na verdade, pretendo pagar meus credores e quitar minha dvida com o Ministrio da Justia assim que me recuperar. Mas tenho de ter algum tipo de trabalho para isso.
	Voc tem muito sangue-frio, Judy  declarou Clia Myers, trs semanas mais tarde, colocando o envelope com endereo do destinatrio em cima do pacote fechado.  Acho que eu nunca conseguiria devolver todos estes lindos presentes. Quase morro cada vez que levo um destes pacotes para o correio.
 
	Oh, pobrezinha!  brincou Judy.   tanta bondade sua me ajudar enquanto sofre dessa maneira...
	Bem, voc, pelo visto, est muito bem. Judy, eu, em seu lugar, morreria de vergonha se fosse deixada no altar por um homem lindo como Ben Cruz!
	No precisa me lembrar. Mame faz isso todos os dias. Acredite, Clia, estou sofrendo. Mas j disse: Ben e eu seramos um erro. Tive sorte por ele haver percebido isso.
Clia passou a mo pelos cabelos curtos e encaracolados e encarou a amiga.
	Imagino que sim. Mas voc no parece estar com o corao partido.
"Voc no sabe de nada", pensou Judy. Aquela sensao sufocante, como se tivesse uma pedra no peito, devia ser um corao partido. Ficava mais pesada a cada dia em que a esperana diminua. Esperana de apenas um telefonema.
Jake Mason no telefonou.
O sexto sentido de Judy no a enganara. Na opinio dele, ela no passara de uma aventura de uma noite.
Aquilo a magoava. A semana fabulosa e a noite que nunca esqueceria significaram tanto para ela!
E to pouco para Jake...
Por que no conseguia esquec-lo? Como era possvel sentir tanta falta dele, se maio conhecia?
Errado. Judy sentiu as faces corarem. Conhecia-o melhor do que a qualquer outro. No se arrependia. No, mesmo! Fora uma experincia linda, maravilhosa, inesquecvel.
	Ei!  Clia estalou os dedos na frente do rosto de Judy.  Em que est pensando?
	No que dizer  mentiu Judy, escrevendo algo numa nota, apressada. Mandaria-a para Jake.  No quero dar a mesma desculpa a todas as pessoas.
	Ento no vai retornar a seu antigo emprego?
	No, estou trabalhando com papai. E estudando. Por isso  que s agora estou devolvendo os presentes. Mas, pelo menos, passei!
	Passou em qu?
	No teste. Voc est olhando para uma genuna empreiteira, habilitada para trabalhar em construes.
	O qu? Voc  uma empreiteira? Uma mulher to delicada como voc? O que far?
	Muita coisa. Esqueceu que eu costumava trabalhar com papai durante o vero? J aprendi como pintar ou colar papel de parede. E comprar, transportar, carregar...  Judy riu.  Se no for muito pesado.
Clia a olhou com desconfiana.
	Construir no  decorar, voc sabe disso.
	Mas  parecido. Nunca teria passado no teste se no houvesse estudado arquitetura.
E o que aprendera estava sendo muito til agora, pensou Judy, vestindo um jeans e calando as botas, na manh seguinte. Durante os veres em que trabalhara para Jim, apenas seguira instrues. Agora, com dois anos de faculdade, entendia por que os negcios do padrasto iam mal. Jim estava desatualizado.
A Construtora Taylor sempre fora uma empresa relativamente pequena. Jim tinha poucos empregados, e, no incio, construra apenas casas ou pequenos blocos de apartamentos. Mais tarde, a maior parte dos trabalhos que pegava era de reformas ou reparos, a maioria nas prprias casas que construra.
Judy e Jim haviam trocado os azulejos de uma casa e reformado a cozinha de outra. Em ambas, o olho treinado de Judy notara lugares onde inovaes melhorariam muito a aparncia e o valor de mercado da propriedade. Estava esperando por uma oportunidade para falar a respeito de suas ideias com Jim. Talvez quando falassem sobre as residncias que ele colocara no nome dela.
	Paguei barato  explicou Jim.  Esto caindo aos pedaos. E a localizao  horrvel.
Judy lanou-lhe um olhar duvidoso.
	Ento no seriam, segundo voc disse, as casas que iro recuperar sua fortuna.
	Confie em mim, garota.  Jim piscou.  J lhe disse sobre aquele boato.
Judy ainda no havia visto as casas, mas sabia que eram uma verso mais antiga daquelas que estavam reformando no momento.
"No podem ser muito diferentes", decidiu ela, e passou a maior parte das noites folheando livros de arquitetura e panfletos sobre como misturar o velho e o novo. Estava cheia de ideias, e usava cada oportunidade que tinha para experiment-las.
	Voc  uma maravilha, Judy  elogiou Jim.  Sanson queria apenas uma nova banheira e voc conseguiu convenc-lo a reformar todo o banheiro! Se continuar assim, teremos de contratar outro empregado.
	No at que o negcio de Richmond d certo. Ainda no samos do vermelho.
	Voc  dura na queda, srta. Crenshaw.  Jim sentou-se no telhado e fez um gesto exagerado de quem limpa o suor da testa.  Nunca trabalhei tanto!
	Sem reclamaes! Precisamos disso, no ?  Judy sorriu. Estava feliz por terem tanto servio, por estar exausta demais, o tempo todo, para pensar.
Jake nem respondera sua nota.
Ser que a recebera?
De qualquer modo, era melhor que ele no houvesse telefonado. Mesmo que a tivesse procurado, ela no o teria visto. Estiva ocupada demais durante o dia, cansada demais durante a noite.
Tudo bem... A verdade era que Judy perdera o corao, e o de Jake no fora, sequer, tocado. Seria melhor para ambos se nunca mais voltassem a se encontrar.
Jake Mason sentou-se na cama da sute de sua casa e releu a nota, mais uma vez:
"Querido Jake, estou repetindo o que j disse. Obrigada. E agradeo por seu adorvel Pssaro Azul, que me deu a inspirao e a confiana de que tanto precisava. Posso no voar; mas agora consigo, pelo menos, navegar sozinha. Meus agradecimentos e sinceros votos de felicidade a vocs dois. Judy".
O bilhete lhe fora entregue por intermdio de Sims, a quem Judy confiara o envio. No havia referncia ao cheque que a acompanhava, mas Jake sabia que era o pagamento pelo dinheiro que ele lhe dera. Seu primeiro impulso fora rasg-lo. Mas nele estava impresso o endereo e o telefone de Judy. Jake saberia como entrar em contato com ela, caso precisasse. Se quisesse.
Colocou a nota na gaveta do criado-mudo, longe da vista.
As palavras de Judy o perseguiam: "Nunca amei Ben. Foi s o dinheiro".
"Tenho muito mais dinheiro do que Ben Cruz", pensou Jake.
Ento? O que ela pretendia? As mulheres tm mil modos diferentes de conseguir o que querem, e Jake sabia reconhecer alguns deles.
Judy havia sussurrado: "Por favor, no me deixe". Havia segurado seus braos com firmeza, pressionara os lbios contra os dele, quase implorando para que Jake a possusse.
"E eu pensei... Na verdade, no pensei. Perdi a cabea. Terei perdido tambm o corao?"
O pensamento assustou Jake. No conseguia esquecer as palavras de Judy: "Dinheiro!" Ele tinha o dinheiro que Ben Cruz nunca teria.
Judy fora to amorosa, to doce e meiga! Mulheres que fingiam am-lo quando s estavam interessadas em sua fortuna faziam-no sentir-se como uma mercadoria barata.
Jake amara s uma vez. Lisa, que agora estava casada com Scot, seu melhor amigo... Lisa dissera que Jake nunca a amara e, talvez, estivesse certa. Nunca se sentira to prximo dela quanto, em apenas uma semana, se sentira de Judy. No fora s o sexo. Fora... Bem, no queria pensar naquilo.
 Voc achou que me amava  Lisa dissera  porque fui a nica mulher que admitiu que queria se casar com voc por causa de seu dinheiro.
Era verdade. Jake gostara da honestidade latente de Lisa.
"Nunca amei Ben. Foi s o dinheiro."
Judy tambm fora honesta, no fora?
Verdade.
"Tente ser franco tambm, Jake. Aquela noite teria acontecido de qualquer jeito. Se Judy no houvesse se oferecido, voc a teria procurado."
Jake pegou o cheque da gaveta, leu o nmero do telefone e discou.
O telefone tocou. Nenhuma resposta.
Em algumas horas, ele estaria a caminho da Bolvia. L, faria uma viagem de duas semanas, em um bote de borracha, atravessando os rios e canais das reas inexploradas e selvagens dos Andes bolivianos. Excitante. Perigoso. Estava ansioso por partir.
Ligaria para Judy quando voltasse.
Talvez.
CAPITULO VII

Judy no foi para a reunio do conselho de Richmond com Jim. Aquela seria a noite em que votariam o projeto do East End, rea onde estavam concentradas as propriedades que Jim comprara. Judy tentou esperar pelo padrasto acordada, mas, como sempre, acabou dormindo sobre os livros.
Durante o desjejum, no dia seguinte, Jim mostrou-lhe o jornal.
	E um fato agora, Judy. O boato tornou-se verdade!
	Isso  maravilhoso! Voc tinha razo, Jim.
	Sim. Escute s isto.  Ele leu a detalhada descrio da unnime votao do conselho, para garantir emprstimos para os proprietrios de Richmond investirem em melhorias em seus imveis.
	O que isso significa?
	Significa que no estamos falidos, Alicia. Ao contrrio. Possumos quatro casas nesse lugar, que, quando reformadas, valero um bom dinheiro.
	Com certeza, conseguiremos contratos para reformar outras residncias  acrescentou Judy.  Parece promissor.
	Pode acreditar! Estamos no lugar certo, na hora certa, querida.
Judy estava excitada, sua cabea cheia de ideias. O bairro poderia no ficar to luxuoso quanto Georgetown, mas decerto seria sofisticado e elegante.
As casas ficavam a uma hora de carro de Elmwood, e Judy s teve oportunidade de conhec-las dias aps a votao. Estivera muito ocupada, tentando fechar outros contratos.
Na quinta-feira, o dia amanheceu chuvoso, e no puderam trabalhar no madeiramento do telhado que estavam reformando.
	Hoje est timo para conhecer suas casas  sugeriu Jim.
	Minhas!  exclamou Judy.  Sabe que so suas.
	No. So da Construtora Crenshaw, e no se esquea disso.  Sorriu.  Afinal, voc tem de se qualificar para receber o dinheiro do financiamento.
Jim dirigia a caminhonete atravs das ruas esburacadas e, s vezes, alagadas. No havia gangues ou desocupados pelas caladas, debaixo daquela chuva. Talvez estivessem se protegendo dentro de alguma daquelas residncias abandonadas, pensou Judy, receosa.
Enquanto atravessavam a rea, ela notou o potencial daquelas construes antigas e malconservadas. Claro que, no presente momento, estavam em pssimo estado e cheias de lixo ou com carros velhos atulhando os jardins e quintais. Mas havia ainda um certo ar de grandiosidade nas ruas arborizadas e bem traadas. Aquele poderia transformar-se em um lugar fantstico.
Jim parou em frente a uma das casas cercadas por tapumes e pegou um molho de chaves do porfa-luvas do carro.
Muito bem, querida. Vamos l.
Sem se preocuparem em usar um guarda-chuva, correram pela calada esburacada at a entrada protegida. Porm, enquanto Jim tentava encontrar a chave da porta, o aguaceiro os castigava pelas falhas no telhado.
Mas Judy via, alm daquela cobertura de telhas quebradas, uma varanda antiga e autntica. Era diferente e original. Apresentava inmeros recursos arquitetnicos.
Jim conseguiu abrir a porta, e eles entraram. A primeira coisa que Judy sentiu foi um inesperado calor ao se proteger da chuva fria. Era acolhedor, t que...
	Certo, moa! Pode ir saindo daqui. Este lugar  meu!  Um homem ficou em p, diante deles, alto, grande e ameaador, segurando um enorme taco de madeira.
Judy recuou, o medo atravessando seu corpo, paralisando-a, transformando seus joelhos em gelia. Jim no se mexeu.
	O que quer dizer com "meu lugar"? Isso  invaso de propriedade, meu amigo.
	Jim...  Judy o puxou pela manga, os olhos fixos no enorme homem, no taco em suas mos, na porta fechada atrs dele. Poderia haver outros.  Por favor.  melhor irmos.
	Oh, no!  ele quem vai sair. E agora!  um invasor, no tem o direito de estar aqui. Vou chamar a polcia.  Jim agarrou a mo de Judy e a levou em direo  porta.
	No vai mesmo!  O estranho pulou na frente deles e bateu com o taco no cho com tanta fora que a casa toda sacudiu, e o choro assustado de um beb foi ouvido por detrs da porta fechada. O invasor sacudiu o taco, batendo no cho outra vez e bloqueando a passagem.
	No, Charlie! No faa isso  uma voz angustiada implorou, por detrs da porta, que de sbito se abriu para dar passagem a uma jovem com um beb nos braos.  No brigue. Charlie. Vamos embora.
	Para onde, querida?  Ele parecia revoltado e, ao mesmo tempo, desesperado. "Voltou a erguer o taco, com ar resignado Jim pensou que o sbito movimento fosse um ataque. Ergueu os braos para se defender, mas foi abatido por um inesperado mal-estar. Caiu ao cho, ofegante.
Judy ajoelhou-se ao lado dele, gritando:
	Oh, Deus! Voc o matou!
	Saia do caminho, senhorita.  Charlie a afastou com delicadeza.  Ele est tendo um ataque cardaco.
Charlie abaixou-se e comeou a fazer massagem no peito de Jim. Com destreza, fez respirao boca a boca, na nsia de salvar a vida daquele desconhecido.
	Doze... treze... catorze... quinze...  Charlie contava e massageava, parando apenas para gritar:  Chame uma ambulncia, senhorita!
Judy correu at a caminhonete e telefonou para o servio de emergncia. Quando retornou a casa, viu, aliviada, que os olhos do padrasto estavam abertos, e j ele respirava sozinho.
A ambulncia chegou em alguns minutos, que mais pareceram uma eternidade. Judy, Charlie e a jovem observaram enquanto os paramdicos colocavam Jim em uma maca.
	Espero que tudo fique bem.  Charlie parecia constrangido e amedrontado. Virou-se para Judy.  Desculpe-me. Sei que isso tudo aconteceu por minha culpa.
Judy tocou a mo enorme, em um gesto de agradecimento.
	Graas a voc, ele est vivo. Obrigada.
	Mas se eu no houvesse... Eu nunca quis atac-lo.-Escute, sinto muito  disse ele, de novo.  Deixaremos esta casa agora mesmo.
	No. Voc e sua famlia ficam onde esto... Por favor.
Falarei com vocs mais tarde.
Ento, Judy entrou na caminhonete e seguiu a ambulncia at o hospital.
Uma semana aps o ataque cardaco, Jim j estava recuperado. Mas no completamente.
	No poderemos oper-lo at que sua presso baixe  dissera o mdico.
Judy imaginava que aquilo poderia demorar. Algo teria de ser feito para acalmar o padrasto.
Colocou a cadeira ao lado da cama de hospital e segurou a mo de Jim.
	Tudo ficar bem, papai.
Ele meneou a cabea.
	Vocs duas estariam em melhor situao se eu tivesse partido desta para melhor.
	No diga bobagem!
	Pelo menos, receberiam o dinheiro do seguro...
	E por que precisaramos disso? Receberemos uma fortuna das reformas  nossa espera... Lembra?
	No comigo confinado nesta cama, querida. No pode fazer tudo sozinha.
	Ento  essa a credibilidade que d a Construtora Crenshaw?
Jim tentou sorrir.
	No quero desanim-la, Judy. Voc  a melhor, mas sem ajuda... Ser demais.  Suspirou.  Nem sequer terminamos o telhado de Donaldson. Pobre Alicia- Deve estar preocupa dssima.
	Mame est bem. Vir visita-lo mais tarde.
Alicia tivera de ser carregada para fora do quarto de Jim, porque suas lgrimas e lamentaes poderiam afet-lo. Aguardava na sala de espera.
	E j terminamos o telhado, papai! Quer ver?  Judy sorriu ao notar que os olhos do padrasto se arregalaram quando colocou o cheque diante dele.
	Mas... Como? Ligou para Todd?  perguntou Jim, referindo-se a um de seus velhos empregados.
	No. Charlie.
	Charlie?
	Lembra-se do invasor?
	Oh, grandessssimo...
	Acalme-se, Jim. Ele salvou sua vida. Foi Charlie quem percebeu que voc estava tendo um ataque cardaco e agiu com eficincia.
Judy ajeitou os travesseiros, deixando o padrasto em posio mais confortvel. Ento, acrescentou:
	Charlie  uma mina de ouro, pai. Um verdadeiro achado! Voltei l, no dia seguinte, para conversar com ele. Charlie no estava, mas a esposa sim, e May me contou sobre a mar de m sorte que os acometera. Charlie perdeu o emprego quando a empresa onde trabalhava fechou, h mais ou menos um ano.
Fez alguns trabalhos temporrios, mas no o suficiente para impedir que fossem despejados h dois meses e... Bem, voc sabe o resto.
	Sim: invaso de propriedade.
	Espere!  Judy ergueu a mo.  Voc no acreditaria nos reparos que ele fez na residncia. May me mostrou.
Jim ouviu, maravilhado, a descrio das melhorias.
	Tudo isso?  perguntou, surpreso.
	Sim. Charlie  muito habilidoso, sabe fazer quase tudo. Est trabalhando para mim agora, por um salrio mnimo e moradia gratuita... isto , se voc no se importar.
	Est perguntando para mim? A casa  sua. E a empresa tambm, srta. Crenshaw.  Jim apertou a mo de Judy.  Parece que sabe o que est fazendo, amor.
	Jim est muito melhor  Judy disse  me, alguns minutos mais tarde.  Se Deus quiser, poder ser operado em breve.
Aquilo no foi muito reconfortante para Alicia.
	Oh, Deus! Cirurgia!  exclamou, aflita, fechando o livro que lia para se distrair. - No suportarei se algo der errado, se algo acontecer a Jim.
	Nada acontecer. Pelo contrrio, papai ficar mais forte.  Judy apoiou um brao sobre os ombros da me.
Comeava a compreender que Alicia nunca mudaria. No era culpa dela. Era tensa demais, preocupada demais, e precisava de tanta ateno quanto Jim.
	Por que no paramos em um restaurante antes que eu a leve para casa, mame? Assim, no precisar cozinhar mais tarde.
Os dias passaram rpido. Judy estava muito ocupada. O hospital, a me, o trabalho...
Os Donaldson haviam ficado satisfeitssimos com a reforma do telhado, e quando Judy sugerira janelas mais amplas, aceitaram no mesmo instante.
	Sim!  A sra. Donaldson adorara a ideia. Estivera mesmo imaginando como conseguiria mais claridade para a casa.
Judy tambm se entusiasmara. Mais iluminao seria a inovao necessria naquelas construes antigas, o que podia ser conseguido com facilidade com janelas mais amplas, vitrais e iluminao indireta.
Cada trabalho era seguido de outro. Os Jackson, vizinhos dos Donaldson, haviam dado a casa de presente para a famlia do filho, que queria transformar o sto em sala de brinquedo para as crianas.
	Claro  dissera Judy, imaginando quando conseguiria fazer aquela reforma.
Ento, Todd, o eletricista de Jim, resolveu voltar ao trabalho.
	Voc est se saindo to bem quanto seu padrasto  disse a Judy.  Quer que eu entre em contato Lo? Ele  timo encanador, j trabalhou para Jim, e os Day, do outro lado da rua, esto pensando em instalar uma banheira de hidromassagem.
	Sim, fale com Lo  concordou Judy. Precisava de muita mo-de-obra disponvel para quando precisasse.
Alm disso, j pedira um emprstimo para realizar melhorias na propriedade que Charlie ocupava. Judy pretendia us-la como modelo para atrair outros clientes.
Ela gostava de Charlie, e ele estava provando que era valioso. Parecia sempre saber o que precisava ser feito e como faz-lo. Certa vez, Judy lhe perguntara como aprendera tanto sobre construes, e Charlie respondera:
	Passei trs anos de minha vida trabalhando para o corpo de engenheiros de Tio Sam. Construmos de tudo, desde barraces at pontes.
"Obrigada, Tio Sam", pensou Judy. Precisava de um brao direito, e Charlie era ideal para o posto. Ele supervisionava as obras enquanto Judy ia at o hospital, visitar Jim.
A cirurgia para colocar trs pontes de safena do padrasto foi muito bem-sucedida. Agora, Jim apenas se recuperava no hospital. Sentia-se orgulhoso e feliz pelos negcios estarem indo bem.
Se Judy houvesse se casado com Ben, no entanto, nada daquilo estaria acontecendo. O dinheiro dele teria salvado os negcios, evitado o ataque cardaco de Jim e poupado a me de tantas preocupaes.
Bem, aquelas eram guas passadas. Judy os estava compensando por todo o mal que lhes causara, reerguendo os negcios, o que deixara todos felizes e, alm do mais, estava se divertindo muito!
Os dias passados em um barco lindo chamado Pssaro Azul pareciam irreais naquela tarde em que Judy saiu do hospital e foi a casa dos Jackson, onde Charlie terminava o reboque das paredes do sto.
 Est timo!  Judy estava admirada com o trabalho perfeito.  Acho que o papel de parede do mapa-mndi ficar excelente.  melhor checarmos as medidas, mais uma vez.
Judy tirou a trena do bolso, subiu em uma escada e ergueu os braos para comear a medir.
A tontura atingiu-a, de repente. Se Charlie no a houvesse segurado, teria cado ao cho.
Quando ela abriu os olhos, ele estava passando uma toalha embebida em gua fria em seu rosto.
Judy se sentou depressa.
Estou bem.
Charlie parecia to assustado que Judy sorriu para tranquiliz-lo.
	Ns, os Taylor, devemos ser alrgicos a voc, Charlie. Sempre camos quando est por perto.
	E me assustam, tambm. Escute, no seria melhor se fosse a um mdico?	
	Imagine, estou tima. Almocei com mame no hospital. Acho que aquele sanduche de frango no me caiu bem...
	Mas voc se sentiu mal ontem, durante o almoo, lembra?
Deve estar com alguma doena, como esse problema de estmago que est atacando as pessoas.
	No posso adoecer.  Judy suspirou, alarmada.  Este seria o pior momento de minha vida para isso. Temos muito servio pela frente, e Jim ainda est no hospital.
	Sei disso.  O homem alto, que se tornara um grande amigo de Judy, parecia preocupado.  Talvez fosse melhor ir para casa e descansar. Terminarei tudo por aqui.
	Eu no conseguiria descansar. Ficaria tensa demais, pensando.
Seria melhor se tomasse algum remdio para o estmago, pelo menos. O de May ficou muito delicado quando ela esteve grvida de Chuckie, e o mdico receitou-lhe umas plulas que resolveram o problema em pouco tempo. 
Judy encarou Charlie. Seria mesmo melhor procurar um mdico... 
No podia ser verdade! Impossvel! No naquele momento to delicado.
Judy fitou o dr. Alden. No fora a seu ginecologista por medo de que fosse verdade.
Era verdade!
O que faria?

CAPITULO VIII

Jake sentou-se no bar, tendo sobre o balco, diante de si, um martni intacto. No conseguia desviar o olhar da entrada. Sabia que chegara cedo, mas estava ansioso para rever Judy.
Por qu?
Porque no conseguira tir-la da cabea. Mesmo naquele lugar selvagem, do outro lado do mundo, onde ele estivera nas ltimas semanas, Judy se mostrara presente. Sua risada musical ecoava sobre as guas revoltas enquanto Jake remava entre as corredeiras. O brilho suave das estrelas fazia-o se lembrar dos olhos azuis. At a sinfonia dos pssaros atiava-lhe a memria. "Sinto-me que poderia voar".
Era estranho como Jake recordava de tudo o que Judy dissera, uma mulher com quem havia convivido menos de uma semana... e uma noite.
Ela era inesquecvel. Jake queria conversar com Judy, olh-la, ouvir sua risada e admirar o olhos encantadores. Pretendia telefonar-lhe assim que voltasse.
Ficou feliz ao saber que Judy havia ligado.
	H uma semana  dissera Sims.  Pediu que voc falasse com ela assim que chegasse. Aqui est o nmero.
Era o mesmo que constava no cheque, Jake notou, surpreso por hav-lo decorado.
Jake! Obrigada por ligar.  Judy parecera aliviada.
Ser que achara que ele no retornaria a ligao?
	Sims contou que voc telefonou quando eu estava na Bolvia, Judy.
	Sim. Preciso... Isto , gostaria de combinar um encontro com voc.
	timo. Tambm gostaria muito. Quando? D-me seu endereo. Eu poderia ir...
	No! Precisarei ir at Wilmington amanh, a negcios. Poderamos nos encontrar no Aldo's. Que tal? Est bem para voc?
	Est.
Uma e dez. Judy estava atrasada. Que tipo de negcios ela teria em Wilmington?
Uma e quinze. O olhar impaciente mantinha-se fixo na entrada.
Uma e trinta.
E... l estava ela! Ombros eretos, cabea erguida. Chegava com ar determinado.
Jake a olhava com tanta ateno que nem se moveu. Mas, ao v-la dirigindo-se a um dos garons, ele se movimentou em sua direo.
	Ol, Judy! Eu a esperava no bar.
	Oh, ol!  Ela sorriu, mas os lbios estavam trmulos. Havia uma certa apreenso em seu olhar.  Como tem passado? E como foi sua viagem?
	Tudo bem! Reservei uma mesa, mas...  Jake fez um gesto indicando o bar.  Gostaria de tomar um drinque, antes?
	Gostaria.  Ela parou de repente, balanando a cabea.  No. Melhor no. Precisarei dirigir de volta para casa.
Sentaram-se.
	Desculpe-me por haver me atrasado, Jake. Transferiram Jim para uma clnica de recuperao esta manh, e eu precisei cuidar de alguns detalhes.
	Jim?
	Meu padrasto. Foi operado do corao.
	Sinto muito.  Jake imaginou se ela precisaria de ajuda, mas ficou relutante em perguntar.
	Agora ele j est bem. S precisa de alguns dias mais para se restabelecer. Minha me no tem muita estrutura para esse tipo de situao.
	Entendo. H algo que eu possa fazer? Voc precisa...
	No, obrigada. Jim no  um paciente dcil, mas estamos tentando dom-lo. Mas... eu... H algo mais.  Judy mal se serviu de salada e pegou o saleiro para temper-la, mas o pousou sobre a mesa.  Tenho um pequeno problema. Preciso de voc.
Silncio.
Por que Judy estava to nervosa? Jake notou que ela dava rpidas piscadas, viu que os dentes brancos mordiam o lbio inferior. Aqueles mesmos dentes haviam mordiscado sua pele naquela noite quando Judy se atirara sobre ele, chamando seu, nome inmeras vezes.	
O corpo masculino estremeceu com a lembrana. Ela fora; tempestuosa e, ao mesmo tempo, to magnfica. Por que Judy; se mostrava hesitante? Ser que no sabia que Jake faria qualquer coisa por ela?
	O que precisar, Judy.  s pedir.
	Quero que se case comigo.
Com certeza, aquilo era um tipo de piada.
	Minha querida! Assim, to de repente?  Jake riu. Mas observou-a e constatou que no era brincadeira.
Judy estava mortalmente sria.
	Estou grvida.
	Grvida?!
Ele no deveria ter dito aquilo. Judy leu nos olhos dele: "Em uma nica noite? No a vejo h dois meses. Pode ter acontecido... com outro!"
Judy meneou a cabea. Era lgico que Jake esperava por detalhes... provas.
	O dr. Alden  meu ginecologista, e seu consultrio  nesta cidade. J passei pela segunda consulta. Ele confirmou. Estou agora no segundo ms.
Os momentos romnticos se transformaram em um pesadelo que Jake sempre se preocupara em evitar. Mas aquela noite... o barco chacoalhando sob a tempestade e uma mulher em seus braos, uma jovem muito desejvel, que cheirava a sabonete de lavanda e gua do mar. Judy aproximara-se dele e implorara... Quem, naquele momento, se lembraria dos preservativos que estavam na gaveta do criado-mudo?
	Droga!
	 o que eu acho.  A amargura na voz, to rara em Judy, o chocou.  Escute, Jake, no ser to mau assim. No precisar ser um casamento de verdade, nem duradouro. S at que o beb nasa ou minha gravidez seja de conhecimento de todos. Poderemos dizer que somos incompatveis a qualquer momento... em seis meses ou quando voc quiser. E fcil conseguir o divrcio.
"E custoso", pensou Jake, lembrando-se: "Eu no amava Ben. Foi pelo dinheiro".
	Ento, qual  o problema, Judy? Eu pagarei. Quanto? Para o beb ou para o que quer que pretenda fazer.  muito fcil tambm, voc sabe.
O rosto de Judy ficou branco como papel.
	No pretendo fazer nada, a no ser ter meu filho, que, por acaso, tambm  seu. Tudo o que peo  que me ajude a dar respeito para...
	Respeito! Acho que essa  uma palavra fora de moda.
	Para minha me, no .  to importante para ela quanto para seus anjos. Moral e casamento. Alicia morreria se eu me tornasse me solteira.
	 mesmo?
	Sim. E ela j foi contrariada demais. Alicia estava muito feliz, planejando meu casamento. Ficou muito abalada pelo que aconteceu, e me considera culpada. Talvez at seja. E, para complicar, agora tem o problema de Jim, que ainda no se recuperou.  Judy mordeu o lbio, de novo.  No posso obrig-la a sofrer mais um dissabor. De jeito algum.
Jake no conseguia se mover. No permitiria que ela o comprometesse.
	Ento, esta proposta de casamento  para agradar sua me. Neste caso, s fingiremos estar...
	No. Quero respeito para minha criana, tambm. Ou, digamos, legitimidade.
	Ah! A hora da verdade! Seu amor pelo beb. Sua vontade de que ele, ou ela, tenha direito a reivindicar meu nome e, lgico, minha fortuna.
Judy prendeu a respirao, chocada ao ouvir aquelas palavras. Estaria Jake pensando que queria o dinheiro dele? Que planejara aquilo para aproveitar-se? A raiva a fez enrubescer.
	Como ousa pensar tal absurdo?! Por que, seu egosta, miservel...  Judy ouviu movimentos na mesa ao lado e percebeu que estava falando alto.
	No foi isso o que eu quis dizer.
	Engraado! Foi isso o que ouvi. Alto e bom som!
No era o que ela esperava do homem gentil que a resgatara da igreja, naquele dia. Lgrimas queimavam-lhe os olhos, e Judy se sentiu nauseada. No podia demonstrar fraqueza. No naquele momento. Encarou-o, o olhar faiscante.
	Escute isto, Jake Mason: no sou uma assassina! No matarei esta criana para atender  sua convenincia, ou  minha!
	No estou lhe pedindo para fazer isso. S digo que o casamento no ser necessrio.
	O casamento ser para minha convenincia. Conveno. Respeito. Acredite-me, pensei em tudo antes de procur-lo. Em outras circunstncias, poderia conseguir um emprego na Califrnia, ou onde quer que fosse, at o nascimento. Mas no posso deixar Jim, agora. Todos os negcios dele dependem de mim.
	Escute. Disse-lhe que pagarei...
	Seus advogados poderiam elaborar um daqueles contratos pr-nupciais.
	Nenhum contrato pode ser feito quando h uma criana envolvida.
	Assinarei o que voc quiser. No tocarei em um centavo de seu precioso dinheiro. E tambm no estou pedindo que mude seu estilo de vida. Tudo o que peo  que fique casado comigo por alguns meses.
	E se eu me recusar?
	Ento, no h mais nada a dizer. Obrigada pelo almoo.  Judy levantou-se, resistindo  fraqueza que sentia.
Jake agarrou-lhe mo.
	Espere, Judy. Vamos conversar em outro lugar.
- No. No se preocupe. Esquea.  Tentou desvencilhar-se para sair. A tenso estava deixando-a enjoada.
	Voc no pode enfrentar esta situao, sozinha. E...
	Desculpe-me. A senhora est sendo molestada?  Um homem que estava sentado  mesa ao lado dirigiu-se a Judy, mas seu olhar reprovador estava pousado em Jake.
	No, obrigada.  Judy procurava controlar o enjoo. - Estou sendo apenas rejeitada  acrescentou quando Jake soltou-lhe a mo. Saiu correndo.
	Espere, Judy!  Jake empurrou o homem para o lado e a seguiu, vendo-a entrar no banheiro das senhoras.
Ele no tinha inteno de deix-la transtornada. S queria esclarecer tudo. Sem envolver-se...
"Bem, voc no tem sada. Sabe que o filho  seu. Mas nos dias atuais, nenhuma mulher engravida se no quiser. Talvez Judy Taylor seja to esperta quanto voc. Talvez... Mas ela  diferente."
"Nunca amei Ben. Foi pelo dinheiro."
"Meu filho..."
Jake olhava para a porta fechada do banheiro. Ser que Judy demoraria para sair?
Judy debruou-se sobre o vaso sanitrio para vomitar de novo, e mais uma vez. Quando terminou, apoiou-se na parede, sentindo-se muito fraca, tentando no se entregar. O que esperava, afinal?
Naquela semana, no Pssaro Azul, Jake parecera to compreensivo, gentil e...
Havia uma grande diferena entre uma semana de frias no barco e uma aliana no dedo.
"Estpida! Certo. Ento estou sozinha", ela pensou, enquanto lavava o rosto. "O que devo fazer agora? Ora, existem tantas mes solteiras! Mas e Alicia?!"
Judy olhou para baixo, observando o ventre liso. Com certeza, ningum perceberia nada nos trs meses seguintes. At l, os negcios estariam estabilizados, e Jim, bem o suficiente para cuidar deles. Talvez ela pudesse partir, ou...
Bem, tinha trs meses para se organizar. Retocou o batom, penteou os cabelos e ergueu os ombros.
Abriu a porta e colidiu com Jake.
	Calma, Judy. Vamos a algum lugar onde possamos conversar.
Trs dias depois, o casamento foi realizado por um juiz em Atlantic City, diante de duas testemunhas que eles no conheciam. Ningum saberia que a cerimnia no havia ocorrido
dois meses antes!
	Se viverei uma mentira, ter de ser bem grande  Judy propusera.  Conheci voc em algum lugar e fiquei perdidamente apaixonada. Confessei a Ben na noite anterior ao casamento, que disse que seria eu quem faria papel de boba, e no ele. Fugi da igreja com voc e... nos casamos. Combinado?
	Espera que algum acredite nesse monte de bobagem, Judy?
	Ento, invente algo melhor!
Voltaram ao Aeroporto de Richmond, onde haviam se encontrado naquela manh para pegar o vo at Atlantic City. Tinham planejado seguir de carro at Elmwood, onde Jake seria apresentado  famlia dela. Naquela altura, Judy estava to exausta que no se preocupava nem um pouco se acreditariam ou no em sua histria.
Uma Alicia pasmada meneara a cabea.
	Jake Mason, das Organizaes Mason! Oh, entendo muito bem  ela dissera.  O amor verdadeiro tudo consegue. Minha menina querida, deveria ter me contado. Eu teria cuidado de tudo. Meu Deus! Precisamos dar uma festa... assim que Jim se restabelecer.
Jim, na clnica de recuperao, teria duvidado, mas estava dopado demais para ficar fazendo perguntas. Judy sentiu-se aliviada.
	Nem precisaremos morar juntos  dissera Judy a Jake quando voltavam para o carro.  Diremos que voc precisar partir para uma longa viagem de negcios. Eles nunca descobriro. Ficarei em casa enquanto...
	Mas que coisa, Judy! Tambm tenho amigos e parentes, sabia?
	E?
	No quero dar a impresso de que ca em uma armadilha! Digamos que tambm me apaixonei, certo?
Judy concordara em mudar-se para a casa dele, onde quer que fosse. Moraria longe do trabalho, mas tambm precisava ceder um pouco.
	Temos de voltar para minha casa para eu pegar algumas coisas  disse ela, imaginando por que no haviam planejado tudo aquilo com antecedncia.  E teremos de ir at o aeroporto apanhar meu carro.
s duas da manh, chegaram  propriedade Mason, em Wilmington Heights. O velho automvel de Judy parecia mesmo deslocado ao lado do Porsche prateado, na garagem de Jake.
	Escute  disse ele, tirando a bagagem de Judy do porta-malas.  No precisa dirigir essa coisa. Pode usar o Porsche
ou aquele Cadillac. Ou ento, comprarei o carro que desejar.
	O meu  timo.
	Est desregulado, os amortecedores esto um lixo e...
	E meu  Judy afirmou, tentando no demonstrar que estava encantada com a propriedade.
Haviam dirigido cerca de dois quilmetros desde o porto at a casa. Quantos quartos teria?, perguntou-se Judy ao entrarem em uma saleta de refeies.
	Quer beber ou comer algo?  Jake estava sendo educado e por algum motivo, aquilo a irritou.
Judy meneou a cabea, imaginando se algum dia conseguiria voltar a se alimentar. Tudo o que queria era um lugar onde pudesse ficar sozinha e descansar. E pensar. Mas, primeiro...
	Voc... mora aqui? Sozinho? Quer dizer, quando nao esta no Pssaro Azul ou voando para algum pas extico...
	Aqui  minha casa. Sempre morei neste lugar. Depois do divrcio, minha me veio morar aqui, mas passa a maior parte do tempo em nossa villa, na Itlia.
	E seu pai?
	Morreu.
	Sinto muito.	
	H dez anos, mas fazia bastante tempo que ele nao vivia conosco De qualquer modo, no vivo sozinho. Os Hunt moram aqui. Voc os conhecer amanh. Venha, eu a levarei ate seu quarto.

CAPITULO IX

Judy no estava to cansada a ponto de no conseguir notar o ambiente  sua volta. Percebeu que o jeans e as botas que usava destoavam do lugar tanto quanto seu velho carro. Ela prpria destoava daquele aposento trs vezes maior que o seu, sem contar o closet e o enorme banheiro todo em mrmore e muito bem decorado. Atravs do vidro das largas portas de correr, avistava o imenso jardim. Era um quarto bastante feminino, suave, com muitas almofadas espalhadas sobre o espesso carpete e cortinas em tecidos de fina qualidade. At as cores, em tons pastel, eram suaves e delicadas.
Judy teria ficado maravilhada com o luxo se no estivesse fascinada pela beleza e enfeitiada pelo conforto. O closet estava vazio. Havia sabonetes e sais de banho no banheiro, acondicionados em grandes potes de cristal. Judy resolveu tomar um banho de imerso e se acomodou na gua perfumada e reconfortante. Mais tarde, debruou-se sobre as almofadas, na cama de casal e adormeceu, como se no tivesse nenhuma preocupao na vida.
s quatro e meia da manh seguinte, Judy resolveu deixar o quarto. No encontrou ningum no caminho at a garagem. Entrou no carro para dirigir at Virgnia. No poderia se dar ao luxo de faltar ao trabalho, e queria pegar a estrada antes que o trnsito ficasse intenso.
Quando retornou, um pouco depois das dez da noite, sentia-se um tanto quanto apreensiva. Ser que algum estaria em casa para abrir a porta para ela? Fora tola em sair e no pedir uma chave. Por sorte, a garagem estava aberta.
Judy no estava preparada para a exploso que enfrentaria. Jake mostrava nas feies uma mistura de alvio e preocupao. Quando Judy desceu do carro, a expresso mudara para ultrajada.
	Onde voc esteve?!
	No trabalho.
	Trabalho!
Judy suspirou.
	Voc fala como se fosse... Escute, no  nada de mais. Apenas uma tarefa comum e, se quiser saber, a maioria da populao mundial trabalha.
	Mas...  Jake hesitou, parecendo mais confuso do que irritado.  Pensei que, j que voc... Acho que no imaginava que minha esposa trabalharia.
	Mais que antiquado! No me diga que  um daqueles chauvinistas que se sentem ameaados pela carreira profissional da mulher.
A fisionomia de Jake se abrandou, e ele quase sorriu.
	No me importo com uma carreira. Imagino uma moa elegante, em um conjunto Armani, carregando uma valise de couro e...
	Pelo amor de Deus!  interrompeu-o Judy. No precisava ser lembrada de que estava coberta de poeira das paredes da casa de Charlie.  Escute, ser que podemos continuar esta conversa sentados em algum lugar?
	Boa ideia! Parece que temos muito o que falar. Por aqui.
Jake abriu a porta de comunicao com a casa, indicando-lhe que entrasse.
	Est com fome?  ele perguntou, quando j estavam sentados  mesa da copa.
	Um pouco.
	Ainda bem que pedi a Sadie para guardar algo para voc.  disse ele, levantando-se e colocando o prato no microondas.  Mesmo sem saber quando ou se voc retornaria...
	O que quer dizer? Voc sabia...
	No sabia nada! Acordei esta manh preparado para explicar sua presena aqui a Sadie e...
	Quem  Sadie?
	Minha governanta. J lhe disse que os Hunt moram aqui, naquela casa atrs da garagem. Eles tomam conta de tudo.
	Oh, ento por que tem de explicar minha presena a Sadie?
	Porque ela est aqui desde quando eu tinha quinze anos e  mais me para mim do que minha prpria me. Sadie, na certa, no entenderia nada deste casamento "arranjado".
A campainha do forno de microondas avisou que a refeio estava aquecida, e Jake tirou o prato, colocando-o diante de Judy.
	Obrigada.
Frango, arroz, molho e ervilhas. Cheirava muito bem.
	O que quer beber, Judy?
	Ch, por favor. Quente. Mas s se no for incmodo.
	No chega nem aos ps do incmodo de ter de explicar o desaparecimento de uma esposa  declarou Jake, preparando o ch.  Eu pareci um perfeito idiota. Tinha conseguido convencer Sadie de que eu havia, como combinamos, me apaixonado perdidamente e resolvido me casar. Ento, como supe que me senti quando a noiva radiante no apareceu o dia todo, chegando s aps Sadie, muito desconfiada, ter se retirado.
Quase enlouqueci! Alis, esse  outro detalhe. A maioria das pessoas trabalha das nove s cinco, no ? Por que est chegando s agora?
	Queramos terminar o piso dos Carlson e trabalhamos, sem pausa, at as seis. Charlie e eu ficamos na casa dele depois disso. Por fim, tiramos todo o velho reboque, mas s trouxe um pouquinho na minha roupa.  Judy olhou para a cala imundas e sorriu.  De qualquer modo, j eram quase nove quando fui visitar Jim. E... Bem,  uma longa jornada de l at aqui, sabe?
Jake a fitava, surpreso.
	Que tipo de trabalho voc faz?
	J lhe expliquei.
	No explicou nada.  Jake bateu a xcara na mesa com tanta fora que um pouco da bebida se esparramou sobre a toalha.
	Eu lhe disse que tinha de cuidar dos negcios.  Judy parou de falar, tentando lembrar-se do dia em que se encontrara com Jake. Havia implorado para que se casasse com ela, mas no entrara em detalhes.
Devia-lhe algumas explicaes. Ento, contou-lhe sobre a falncia, a Construtora Crenshaw e a doena de Jim.
	Entendo, Judy. Sentiu-se obrigada a ajudar. Mas que coisa! Agora podemos dar um jeito nisso. Contrataremos algum para substituir seu padrasto at que...
	No! Prometi que no tocaria em um centavo de seu dinheiro, Jake, e tenho toda a inteno do mundo de manter minha palavra!
Jake encarou-a. Que tipo de estratgia ela estaria adotando? Havia concordado em casar-se com Ben por miserveis duzentos e cinquenta mil dlares para salvar os negcios da famlia, afinal! Jake deu de ombros.
	Chame isso de emprstimo.
	No. Foi assim que Jim se complicou. Alm do mais, estou me saindo muito bem.  para mim tambm, no entende?  como me sustentarei, e ao beb, depois...
	Pelo amor de Deus! J lhe disse...
Judy esticou o brao e tocou a mo de Jake.
	Tudo o que lhe pedi foram alguns meses de casamento. Nada mais.
	Voc tambm prometeu outras coisas em Atlantic City, ontem.
Judy o fitou, confusa.
	Sim, mas aquilo foi uma farsa... S at...
	O que foi mesmo que disse? "Se viverei uma mentira,  bom que seja uma grande." Isso vale para mim tambm. J falei que no pretendo dar a impresso de que ca em uma armadilha.
	O que quer dizer com isso?
	Que ficar aqui o tempo suficiente, de manh, para conhecer os Hunt e assumir sua posio na casa. Tambm estar aqui  noite, para me acompanhar at a festa que meu amigo, Scot Harding, estar oferecendo amanh, s sete, para celebrar nosso enlace.
	Claro...  Aquilo atrapalharia seus planos, mas seria injusto no comparecer.
	E ajudar muito se conseguir se comportar como a esposa radiante de felicidade que todos esperam encontrar.
	Querida, estes so Sadie e Ernie Hunt, que mantm a casa em ordem para mim. E aqui est ela, enfim  disse Jake, abraando-a.  Judy fugiu de ns ontem porque estava preocupada com o pai, que acabou de sofrer uma cirurgia do corao.
	 um prazer conhec-los, e peo desculpas se causei algum inconveniente. Foi muito gentil, sra. Hunt, em guardar um prato para mim. A refeio estava deliciosa.
Judy percebeu que falava rpido demais e parou, sentindo o brao de Jake envolvendo-a. No estava incomodada com aquela representao. Sentia-se  vontade, protegida. Precisava da proteo de Jake.
Os Hunt a olhavam como se quisessem avaliar se seria boa o suficiente para o patro. Afinal, Judy era a intrusa ali e, pela maneira como a observavam, no era muito bem-vinda.
Ernie Hunt, um senhor de certa idade, foi o primeiro a se manifestar:
	 um prazer conhec-la, sra. Mason. Esperamos que seja feliz aqui, e faremos de tudo para isso.
	Sim, faremos mesmo. Esperamos muito por este dia, no , Ernie?  acrescentou Sadie, olhando para Jake, que, aproximou Judy um pouco mais de seu corpo.  Apenas nos diga o que deseja ou o que gostaria de mudar. E a que horas gostaria que o desjejum e -o jantar fossem servidos.
	Bem, no preciso...  Judy parou, tentando se controlar, decifrar as estranhas sensaes iniciadas pelo toque de Jake.
 Tenho negcios em Richmond e precisarei sair de casa muito cedo. Eu mesma posso preparar as torradas e o ch para meu desjejum, se quiser, obrigada. E quanto ao jantar...
	No se preocupe com isso esta noite, Sadie  interrompeu Jake, como se percebesse o dilema de Judy.  Iremos sair. E Judy est to ocupada que, talvez, seja melhor decidirmos a cada dia a que horas o jantar dever ser servido, no , querida?
Ele passou a mo pelos cabelos dela, distraindo-a tanto que Judy quase no conseguiu responder.
Ainda agindo como o marido apaixonado, Jake a levou at o carro e inclinou-se  janela para lembr-la:
	Tente voltar antes das cinco para ter tempo suficiente de se vestir.
	Lgico. Ser um encontro formal?  perguntou ela, tentando lembrar se teria alguma roupa apropriada para a ocasio.
	Casual, mas nem tanto. Gostaria que voc usasse um vestido.
	Certo.  Judy partiu, sentindo a pele ainda queimar com o toque de Jake.
Tentou concentrar-se no dia que teria pela frente. Primeiro, iria at os Jones para levar o oramento dos novos armrios. Depois, entraria em contato com Lo sobre o servio de encanamento. No poderia trabalhar na casa de Charlie naquela noite. Teria de passar na residncia dos pais para pegar um vestido... Talvez o de seda dourada. Ser que Jake aprovaria?
Ora! De que importava a aprovao dele? "Voc foi apenas uma aventura para Jake, garota, e esse casamento no passa de uma farsa. No se esquea disso."
Como era tola! Ele mal a havia tocado, e Judy se derretera toda. Se aquela representao toda fora apenas para os criados, imagine como seria com os amigos... Judy no sabia quanto daquelas demonstraes de afeto conseguiria aguentar.
"Acho que estou bem", pensou Judy,  noite, admirando-se no painel de espelhos de seu closet. O vestido dourado parecia acentuar a cor de seus cabelos, os quais ela prendera em um falso coque com algumas mechas soltas. Calara sandlias que combinavam com a roupa, e estava usando pequenos brincos de ouro. Casual, mas nem tanto...
Perfeito, diziam os olhos de Jake, e Judy sentiu uma leve pontada de orgulho enquanto se dirigiam at a garagem.
A casa dos Harding ficava do outro lado da cidade. Era mais nova, no to espaosa como  de Jake, mas to elegante quanto. Assim que as enormes portas duplas se abriram, foram bombardeados com confetes, serpentinas, assobios e gritos de felicitaes da pequena multido de amigos. E recriminaes.
	Ento, enfim, caiu no lao, seu traidor!
	Sim, como pde nos deixar de fora?
	Ei, Jake, adeus aos bons tempos de liberdade, hein?
	Bem, eu no me importaria, se fosse para ficar aprisionado ao lado dessa moa to bonita!
	Parabns, amigo. Mas algo saiu errado. Eu no seria escolhido para padrinho?
Aps muitos beijos e abraos, o coquetel foi servido, e todos falavam ao mesmo tempo. Quando sentaram-se  mesa, Judy surpreendeu-se ao descobrir que a "multido de amigos" consistia apenas em trs casais.
Scot Harding, o atraente homem de cabelos castanhos que era o anfitrio, ajudou-a.
	Se ele  disse, apontando na direo de Jake  lhe causar problemas, pode me chamar. Tenho tomado conta desse maroto desde os tempos de jardim-de-infancia. E no deixe Lisa irrit-la. Ela suspeita de qualquer mulher que se aproxime de Jake.
	Lisa?
	Minha esposa.  Scot fez um gesto para o outro lado da mesa, onde se sentava uma mulher lindssima.  Ela pensa que  o anjo da guarda de Jake e... Mas no se preocupe. Irei convenc-la de que voc  a melhor coisa que aconteceu a nosso amigo. O olhar dele no me engana. Est apaixonado.
Durante o jantar, Judy descobriu um pouco sobre os outros dois casais: Hal Stanford, um afro-americano, era um dos vice-presidentes da companhia de seguros onde Scot trabalhava.
	Aquela  Dris, esposa de Hal, sentada ao lado de Jake.
	E eu sou o senador Dobbs.  O homem de baixa estatura,  esquerda de Judy, apresentou-se com exagerada pompa.  Estou particularmente interessado em suas preferncias polticas e...
	Cale-se, Al!  Jake interrompeu, do outro lado da mesa.
 No d ateno a ele, Judy. E um poltico de nada, que s est aqui porque  casado com minha prima, Ada.
Jake virou a cabea para olhar para a mulher elegante, sentada a seu lado.
Atravs daquelas brincadeiras, Judy percebeu que aqueles casais eram amigos de longa data, e Jake era parte do grupo. Quem seria sua companheira? A misteriosa Mel, que ningum at ento mencionara? Judy sentiu uma pontada de puro cime. Aquelas pessoas eram agradveis. Desejava ser parte delas, de verdade.
	Ento, Jake?  disse Scot.  Vamos nos encontrar amanh de manh ou sua esposa costuma trancar voc no quarto?
Jake olhou para Judy.
	Scot e eu jogamos golfe nas manhs de sbado. Quer dizer, quando estamos por aqui. No se importa, no , querida?
	Claro que no  afirmou Judy, corando com o "querida".
Jake dizia aquilo como se...
	Otimo.  Scot sorriu.  Esta ser a primeira partida desde o casamento de Ben Cruz. Por falar nisso, como est ele?
Ben? Judy retesou-se na cadeira. Como o melhor amigo de Jake, ele tambm devia fazer parte daquele grupo.
	Quem  Ben Cruz?  perguntou Al.
	Oh, ele  um dos beneficirios da caridade de Jake respondeu Scot.  Desde a faculdade. Na escola, Ben costumava fazer um servicinho aqui e outro ali, como servir mesas no refeitrio. Certa noite, salvou Jake de um carro que vinha desgovernado e conseguiu uma penso para o resto da vida. Quando zera o saldo de sua conta bancria, Ben entra em contato com Jake, que j o ajudou a entrar em vrios tipos de negcios, desde uma granja at uma pizzaria.
No foi aquilo o que Ben dissera, pensou Judy. Olhou direto para Jake, os olhos enviando a mensagem: "Voc nunca me contou!". Ele desviou o olhar, pousando-o no prato  sua frente.
	Garoto esperto!  O senador bebericou o vinho de sua taa.  Soube direitinho a quem deveria salvar. No poderia ter escolhido um tolo maior.
	Certo  concordou Scot.  Sabe por que Jake se disps a fazer aquela viagem para a Bolvia? Porque adora o perigo e, pobre garoto rico, no tem o que fazer, ao contrrio de ns, trabalhadores.
	Deixem Jake em paz  ordenou Lisa.  Ele pode viajar quantas vezes quiser.
	Est bem. S estou dizendo isso porque Jake fez essa viagem. Dois rapazes, na faixa de vinte e cinco anos, queriam montar sua prpria companhia, oferecendo excurses de bote para as regies mais selvagens do planeta. O que acham? Eles precisavam de financiamento.
	E os sortudos conheceram o rei da filantropia!  concluiu Hal Stanford, entre as risadinhas divertidas do grupo.
	Acertou! E conseguiram, no , Jake? Dois rapazes que no sabem nada de...
	Errado. Sabem muito bem o que esto fazendo. Fiz a viagem, lembra? E  um timo negcio. Preferiria que os garotos vendessem drogas ou algo do tipo?
	Tudo bem, amigo! Talvez d certo. Diga-lhes que tenho uma tima oferta de seguro. Com certeza, precisaro. E Ben? Por acaso casou-se com uma herdeira e deu uma folga a voc? Onde est ele agora?
	Partiu, e no sei onde est  respondeu Jake. Ento, tentou mudar de assunto:  Ando ocupado demais, tentando conciliar minha vida com uma esposa que trabalha.
	Trabalha!  Ada, a mulher do senador, exclamou.  Qual  sua profisso?
	Sou empreiteira  respondeu Judy, provocando uma srie de perguntas e comentrios sobre a profisso to incomum a uma mulher.
	Minha esposa tambm trabalha  disse Scot, quando os comentrios cessaram.
	 mesmo?  Judy surpreendeu-se.
Lisa sorriu e mostrou a lngua para o marido.
	Sim, em casa.
	Sua profisso  o casamento. Lisa disse, antes de se oferecer para casar comigo, que essa  a melhor e mais gratificante carreira do mundo, no , querida?
Lisa tornou-se o novo alvo da provocao dos amigos e foi socorrida pela esposa de Stanford, que declarou que o casamento era, na verdade, o emprego mais difcil de se manter.
Quando levantaram-se da mesa e se dirigiram  sala de estar, para o caf, Lisa deu incio ao interrogatrio:
	Muito bem, vocs dois. Contem-nos tudo: onde se conheceram? Como o romance comeou? Queremos saber todos os detalhes.
O olhar assustado de Judy percorreu a sala  procura do de Jake. No haviam planejado aquilo. Ela tentou pensar rpido.
	Navegando!  Foi tudo o que conseguiu formular.
	Certo!  Jake sorriu, aliviado.  Eu estava sentado no deque do Pssaro Azul, pensando na vida, quando avistei essa garota, que parecia estar tendo problemas. Mostrava-se inexperiente na arte de navegar e estava tendo muita dificuldade, tentando acionar o motor do pequeno barco que havia... Havia...
 Jake hesitou, e Judy, que o estivera fitando, surpresa, percebeu que ele necessitava de ajuda.
	Que eu havia alugado  completou, depressa.  O proprietrio havia me dito que qualquer um poderia pilot-lo, ento pensei que eu tambm pudesse.
Jake tocou a testa com o dedo indicador, em um gesto significativo.
	E inexperiente em outras coisas tambm.
	No sou, no.  Judy fez uma careta para o marido.
Estava se divertindo.  S acho que o homem no me deu instrues suficientes.
	Esto vendo? Naquelas circunstncias...
	Ah!  Scot interrompeu-o.  O capito Mason surgiu para salvar a doce donzela! O cavaleiro da armadura reluzente! Ou ter sido a viso dos lindos cabelos dourados?
	Nada disso.  Jake balanou a cabea.  Foi a viso do corpo escultural modelado por um minsculo short azul.
	Ok, j entendi  disse Stanford.  E depois?
	Bem, achei que Judy deveria experimentar um barco de verdade... como o Pssaro Azul.  Ele no forneceu muitos detalhes, mas o que disse descrevia os dias que haviam passado juntos no iate.
Ante a lembrana, Judy suspirou, emocionada, imaginando como a vida lhe parecera fcil e despreocupada naqueles dias maravilhosos.
Voc se saiu muito bem naquela parte sobre como nos conhecemos  disse ela, enquanto se dirigiam para casa.
Jake ergueu os ombros.
	A necessidade  a me das invenes, minha querida.
	Estamos inventando muitas coisas ultimamente, no acha?  Judy procurou no parecer amarga.  Tornamo-nos to bons mentirosos quando Ben Cruz.
Jake a olhou de soslaio, mas no disse nada.
	Voc no me contou - persistiu Judy.
	Para qu? J havia acontecido. De qualquer modo, ia se casar com ele, apaixonada e tudo. No gosto de destruir sonhos.
	Mas mesmo depois. Quando eu lhe disse que no o amava, que fora apenas...
	Tudo bem, tudo bem  interrompeu Jake. No queria ouvir outra vez que havia sido apenas o dinheiro.  Agora j sabe. Vamos esquecer tudo isso? Voc est muito melhor sem ele, e eu...
Parou no meio da frase, mas Judy sabia o que Jake iria dizer: "E eu estou preso a voc."

CAPITULO X

Jake no se importava mesmo que a esposa trabalhasse. Para dizer a verdade, sentia inveja dela. Judy acordava cedo todas as manhs, com um objetivo, um lugar para ir. Havia pessoas a sua espera, algo que precisava ser feito.
Ningum se importaria se Jake dormisse o dia inteiro, pois no era necessrio em lugar algum. Nem sequer nas vrias reunies de diretoria, a no ser que algum estivesse apresentando um novo projeto e seu voto fosse imprescindvel.
"Deve ser bom sentir-se importante."
Cada manh, quando ele ouvia o chuveiro no banheiro de Judy, imaginava-a sob a cascata de gua, os cabelos grudados na pele. Como naquela noite...
Jake sempre descia para encontr-la antes que ela sasse para o trabalho.
	Caf?  ofereceu ele.
	Obrigada, mas  melhor eu me apressar. No quero ficar presa no trnsito.
Os olhos de Jake apreciavam o corpo de Judy, enquanto ela se afastava. Ficava linda naquele jeans justo. Imaginou quanto tempo restava at sua barriga comear a crescer.
Era uma manh chuvosa. Por isso, Jake no ouviu o barulho do carro de Judy se afastando. Estranhou, pois ela sempre saa no mesmo horrio. Desceu para ver o que acontecera e a encontrou do lado de fora da casa, sob a chuva torrencial. Parecia estar se sentindo mal, porque se apoiara na lateral do automvel.
	O que est acontecendo, Judy?  perguntou, preocupado.
	Desculpe-me, nunca sei quando as ondas de nusea vo comear. J  tarde. Chegarei atrasada no servio.
	Nada disso.  Jake pegou-a no colo.
	Espere, isto no  necessrio. Sinto-me bem, agora. Pode deixar.
Jake no deu ateno aos protestos e a carregou at o quarto, pingando gua por toda a casa.
	Voc  uma tola.  Jake passou a despi-la.  Como pde ficar parada debaixo desse temporal?
	Eu usava minha capa. E voc?
	No se preocupe comigo.  Jake estava encharcado e descalo.
	Pare com isso! No precisa tirar todas as minhas roupas.
	Fique quieta, Judy!  ordenou, jogando as botas dela para o lado e desabotoando-lhe a cala jeans.  No  a primeira vez que a vejo nua.
	Escute, tenho de ir. Charlie...
	No ir a lugar nenhum, com Charlie ou sem Charlie.
Aps despi-la, Jake procurou um roupo, mas, sem encontrar um, puxou as cobertas e colocou-a na cama. Judy tentou levantar-se.
	Escute, Jake, eu j disse: tenho de ir. Charlie precisa de mim para...
	Fique onde est ou ter de arcar com as consequncias.
Judy podia ser mais inteligente e necessria, mas ele era maior.
Ela queria soc-lo. Implorar, fazer com que entendesse. Mas estava to cansada! A cama era to confortvel... Se pudesse ficar deitada s por alguns minutos...
	Quer alguma coisa? Torradas? Ch?
Judy assentiu.
	Obrigada.
O ch sempre a ajudava a sentir-se melhor. Ento poderia...
	S se prometer no sair da.
Judy piscou. Jake estava sendo gentil. Tocou o brao musculoso.
	Sei que suas intenes so as melhores, Jake, mas, de verdade, j estou bem. E tenho muito o que fazer. Tenho de dar instrues a Charlie. Jim est em casa agora, e quero visit-lo e...
	Certo. Prometa ficar aqui e decidiremos o que far quando eu voltar. Combinado?
Judy meneou a cabea, concordando.
Enquanto comia as torradas e tomava o ch reconfortante, ela teve de fazer mais promessas. Ficaria onde estava, e Jake iria a Richmond, levaria as ordens a Charlie e passaria na casa dos pais dela para visitar Jim.
	No diga a eles que estou doente, Jake. Bem, diga que  uma virose ou algo assim. No quero contar-lhes sobre o beb, por enquanto. E no se esquea de dizer a Jim que tudo est bem entre ns, quer voc concorde, quer no.
Jake prometeu, mas Judy continuou ansiosa depois que ele partiu. No queria que se afastasse. Gostava de cumprir, ela mesma, suas obrigaes.
Mas o eletricista estaria esperando por Charlie, que lhe diria o que fazer, e Jim precisava de constantes atenes.
Algum teria de ir.
Judy se sentia exausta. Era bom ficar deitada ali e dormir.
Ainda chovia quando, seguindo as instrues de Judy, Jake chegou  casa de Charlie. Subiu os degraus, apertou a campainha e observou a varanda, que, a julgar pelas vigas novas de madeira, havia sido reformada. S faltava uma pintura para completar o novo visual.
A porta foi aberta por um homem alto e forte.
	Charlie?  perguntou Jake.
	Eu mesmo. Em que posso ajud-lo?
	Sou marido de Judy. Meu nome  Jake. Ela me pediu para trazer-lhe isto.  Estendeu-lhe um papel.
	Obrigado. Onde est Judy? Algum problema? Oh, entre, por favor  convidou Charlie, afastando-se para dar passagem a Jake.
Ao entrar na sala, Jake constatou o que Judy lhe contara sobre a reforma nas paredes. Havia entulho em um canto e muita poeira no ambiente.
Juntou-se a Charlie e a May para tomar um caf,  mesa da cozinha. Assegurou que Judy estava bem, talvez com uma virose sem grandes consequncias, admirou o beb e pediu para acompanhar Charlie durante o servio.
	Prometi a Judy que faria um relatrio completo para Jim.
Aps passar as ordens para o eletricista, Charlie visitou vrias residncias para que Jake pudesse ter uma ideia geral do que estava acontecendo. Levou-o at a propriedade onde o eletricista estava trabalhando.
	Judy gosta muito de iluminao indireta e, com certeza, essa  uma tima alternativa para dar maior claridade a estas casas antigas.
Foram tambm at o lugar onde Lo instalava a banheira de hidromassagem. Charlie fez ainda questo de levar Jake at a casa dos Jackson, para mostrar, muito orgulhoso, o sto j reformado.
	Judy e eu fizemos este trabalho sozinhos.
Jake tentou imaginar Judy trabalhando ali, naquela sala enorme, agora repleta de brinquedos, usando martelo e furadeira para instalar os gabinetes, que, de algum modo, fizeram-no se lembrar do Pssaro Azul. Ele adorou o papel de parede com estampa do mapa-mndi, que tornava o ambiente claro e alegre, mesmo em um dia cinzento e chuvoso.
De volta a Richmond, Charlie mostrou-lhe algumas residncias em decadncia e contou-lhe sobre os planos de Judy.
Era excitante!, pensou Jake, j no carro, indo ver Jim. Tantos projetos ao mesmo tempo. Construir, reformar, dar servio s pessoas... No era de se estranhar que Judy se dispusesse a acordar de madrugada e dirigir toda aquela distncia para chegar ao trabalho.
Ela no mentira quando dissera que no precisava do dinheiro do marido. No tinha necessidade do mundo ocioso de Jake. No precisava dele.
A gravidez era um empecilho para Judy, uma armadilha. Ela tentava no se deixar abater, e continuar com as tarefas. Jake lembrou-se dela naquela manh. Frustrada. Enjoada.
Coitada!
Jake podia facilitar as coisas para Judy, no podia? Quer ela quisesse, quer no, teria de aceitar a ajuda dele, dali em diante.
Ele fez um relatrio otimista a Jim Taylor e assegurou-lhe que o vrus de Judy duraria, no mximo, uns dois dias. Alicia convenceu-o a ficar para o almoo, durante o qual Jake no pde deixar de imaginar como fora possvel que uma mulher to ftil houvesse gerado uma filha como Judy.
Entretanto, gostou muito de Jim, um homem direto, e, apesar de fraco, ansioso para voltar ao trabalho e, segundo ele mesmo dissera, "tirar um pouco da responsabilidade das costas de Judy".
	No me importo que minha mulher trabalhe, Jim  afirmou Jake.  Mas juro que gostaria de v-la de vez em quando  acrescentou, como um marido apaixonado.
	Claro, claro! Assim que eu voltar  ativa, Judy poder passar a ter uma rotina normal. No entanto, os mdicos disseram que terei de esperar mais um pouco.
Jake sorriu. "Mais um pouco" era tudo do que precisava.
Judy imaginou se Jake teria contado a Sadie que estava grvida. Algo mudara na atitude da governanta, que lhe fez mil recomendaes quando lhe trouxe a bandeja com o caf da manh, e mais tarde o almoo, dizendo-lhe que comesse devagar, que se mantivesse agasalhada e bebesse muito ch para os enjoos. Pendurou as roupas molhadas de Judy e arrumou o quarto, conversando alegremente enquanto o fazia, perguntando do que ela gostaria para o jantar. Pela primeira vez, fez Judy sentir-se como parte da casa.
Aps o almoo, Judy dormiu um pouco, e acordou sentindo-se revigorada.
Quando Jake retornou, ela j havia tomado banho e vestira uma das camisolas de seu enxoval.
	Estou bem agora  informou, animada, quando Jake veio a seu encontro.  J lhe disse que melhoro quando a onda de enjoo passa. Mas tenho de admitir que adorei o dia de descanso.
	timo!
	Mas agora no sei o que fazer.  J terminara de ler todos os contratos e rascunhara as correspondncias que precisava enviar. No havia, no quarto, nenhum livro que pudesse ler, e na televiso passavam programas infantis.  Sinto-me estranha quando no tenho nada para fazer.
	Sei o que quer dizer.  Algo na voz de Jake fez com que Judy se sentisse tristonha. Ento, ele sorriu.  Mas est chovendo.  um dia perfeito para no se fazer nada. Venha at a biblioteca, h muitos livros e revistas l.
Enquanto desciam, Judy bombardeou o marido com perguntas. Estava tudo bem? Charlie dera as instrues a Todd? Visitara Jim?
	Sim, sim e sim.  Jake sorriu e comeou a cantarolar:
 Mesmo que voc no puxe, a mar sobe. Mesmo que voc no a vire, a terra gira. Mesmo que voc...
	Oh, pare com isso!  pediu ela, rindo.  Sei que no sou indispensvel, mas h tanto a ser feito e to poucos em pregados... Precisarei ir at l amanh, sem falta.
	Tudo bem.  Sem olhar para ela, Jake abriu a porta da biblioteca.  H vrias revistas naquela prateleira. Ou se preferir um livro...
	Eu no poderia comear um livro. No sei quando terei outro dia de descanso como este para terminar de l-lo.
	Bem, talvez mais breve do que imagina. Jim acha que voc est exagerando no trabalho  disse ele, sentando ao lado de Judy no sof.
	Quer dizer que estou trabalhando demais? Isso no me incomoda.
	Mas est indo muito longe para seu papel na empresa. Isso o incomoda.
	Foi o que Jim lhe disse?  Judy parecia ansiosa.
Era isso o Jake a queria. "Ela far qualquer coisa para agradar Jim."
	Sim, seu padrasto falou que voc est dificultando as coisas para ele.
	Dificultando? Como assim?
	Bem, parece que os mdicos disseram que, quando Jim voltar ao trabalho, ter de ser aos poucos. No poder se sobrecarregar. Ele estava contando que voc contrataria pessoas suficientes para que Jim s precisasse supervisionar o servio, quando retornasse.
	Ora, estamos contratando mais empregados. E eu estarei l para ajudar.
	Est se esquecendo de algo: ficar incapacitada por um bom tempo.
	Tem razo. E imagino que ser justo no mesmo perodo em que papai estar em condies de voltar ao trabalho.
	Jim disse que seria timo se voc comeasse a organizar um novo esquema a partir de agora, encarregando-se dos projetos, oramentos e da parte administrativa. Charlie poder cuidar do trabalho em si. Jim gostaria que voc diminusse suas horas no servio, que chegasse mais tarde, por volta das dez, e sasse mais cedo. Assim, quando ele voltar, a rotina j estar estabelecida. Entende?
	Faz sentido. S acho estranho ele nunca haver mencionado nada disso para mim.
	Jim est se recuperando, Judy. Esta foi a primeira vez em que teve disposio de pensar no assunto.
"E voc lhe deu ateno", pensou Judy. De repente, ela sentiu uma enorme gratido. Jake fora at Richmond, supervisionara as obras e visitara Jim. E ainda se dera ao trabalho de escutar as ideias do padrasto.
	Foi muita gentileza sua o que fez hoje, Jake. Estou comovida...  Judy estendeu o brao e tocou a mo dele. Ento, assustada com a reao que o toque provocara, afastou-se rpido.  Obrigada por se preocupar com papai... e comigo.
Que loucura! Como podia sentir aquilo com apenas um leve conta to entre eles? Precisava ficar atenta para nunca mais tocar o marido.
Jake a fitava, e Judy sentiu-se na obrigao de dizer algo mais.
	Acho que papai tem razo. Ser mais fcil para mim tambm, ainda mais agora.
	Sim, ser mesmo.  Jake pegou as cartas do baralho que estava na mesinha lateral.  Que tal uma partida de buraco?
Judy sentiu-se estranha ao sentar-se para o desjejum s nove horas, na manh seguinte. No estava acostumada com tal indulgncia. Surpreendeu-se quando o delicioso caf da manh que Sadie preparara no foi rejeitado por seu estmago e quando Jake juntou-se a ela  mesa. Foi uma experincia agradvel.
	Tenha um timo dia  Judy desejou a Jake, ao se dirigir  garagem para pegar seu velho automvel.
Mas ele no estava l. Em seu lugar havia um reluzente jipe Cherokee zero quilmetro. Lindo. Mas no era dela. Ento, por instinto, Judy se virou. Sim, Jake a seguira.
	Onde est meu carro?  perguntou, amuada.  O que fez com ele? Jogou-o...
	No seja boba! Eu no jogaria nada seu fora. Apenas o guardei em um lugar seguro, mas poder us-lo a qualquer hora.
	Bem, quero-o agora.
	Por qu?
	Porque...  Porque era dela. A nica coisa de real valor que trouxera consigo.  Preciso dele.
	No gostou do jipe?  Jake deu uma volta ao redor do veculo e chutou um pneu.
Judy suspirou.
	Claro que gosto, mas acho que devamos manter o acordo original. Prometi no aceitar nada de voc.
	Terei de lembr-la, mais uma vez, das promessas que fez em Atlantic City, tendo sido elas sinceras ou no.
	Estou mantendo aquelas promessas. Moro aqui e...
	Dirige pela estrada, todas as manhs, um carro que parece que a qualquer momento vai se desmanchar. No  seguro.
	No  to velho assim!
	Alm disso, no tem uma aparncia profissional.
	O que quer dizer com isso?
	Que tive muito trabalho para escolher o modelo apropriado para uma excelente empreiteira como voc.
Judy o fitou, em silncio. Jake falava srio. Na noite anterior, debaixo daquela chuva, Jake fora at Richmond, cuidara dos negcios dela, falara com Jim. Ento, fora comprar um carro. No qualquer carro. O carro certo. Para ela!
E, agora, Judy o estava recompensando com um espetculo de orgulho estpido e irracional! A vergonha, combinada com uma incrvel ternura, fez com que Judy estendesse o brao para tocar o rosto de Jake.
	Oh, Jake, sinto muito.  Afastou-se, resistindo ao impulso de abra-lo.  Perdoe-me. Fui muito tola. No queria parecer mal-agradecida.  s que... Foi uma surpresa. Maravilhosa! Nunca possu nada parecido. Quer dizer, espere... No o quero para mim. Vamos chamar isso de um emprstimo at depois de...
Judy parou, receosa de concluir a frase.
	Chame como que quiser. Apenas dirija-o.  mais seguro e melhor do que o velho.
Depois daquele dia, a tenso diminuiu, e a vida deles, separados ou juntos, continuou, tranquila. As horas dedicadas ao servio foram reduzidas, o que tornou o dia de Judy muito mais fcil. Retornava para casa todas as noites para encontrar um delicioso jantar  sua espera. Jake quase sempre juntava-se a ela para a refeio. Algumas vezes, ele saa da cidade, mas com menos frequncia do que Judy imaginara.
O inverno estava sendo rigoroso. Ento, aps o jantar, costumavam sentar-se junto  lareira da biblioteca.
	Aceita um desafio?  perguntou Jake, certa noite, indicando o tabuleiro de xadrez, prximo  lareira, que ele herdara do av.
	Eu?!  Judy surpreendeu-se.  No sei jogar xadrez. Sempre o considerei complicado demais.
	Covarde! Vamos, eu lhe ensinarei.
Era um jogo difcil, mas fascinante, e Judy adorou as horas que passou jogando. 
Sempre encontravam os amigos de Jake no clube ou na residncia deles. Todos haviam recebido Judy muito bem. Lisa, a mulher de Scot, e Dris, a de Hal Stanford, costumavam convid-la para as reunies femininas, almoo, compras, ou o que quer que fosse. Judy gostava delas e o sentimento parecia ser recproco, pois logo comearam a demonstrar que confiavam nela.
Dris era uma advogada que abandonara a carreira para cuidar dos dois filhos. Planejara voltar ao trabalho quando os garotos estivessem crescidos, mas ento tivera uma garotinha, Ann Marie.
	Ela  mais linda e atraente do que um velho escritrio de advocacia  declarara Lisa. - Se voc no a quiser, fico com Ann.
	Nem pense nisso! Deixe meu bebe em paz!  Dris rira.  Providencie um para voc.
	Estou tentando, estou tentando  dissera Lisa, contando a Judy que queria muito ter um filho, mas, aps um ano e meio de casamento, ainda no conseguira.
Por mais ntimas que fossem as conversas entre o grupo de mulheres, havia um assunto que nunca fora abordado. Jamais, por mais brincadeiras que fizessem, mencionavam alguma antiga parceira de Jake. Nem sequer a misteriosa Mel. Aquilo deixava Judy ainda mais curiosa.
Certo dia, juntou coragem suficiente para interrogar Lisa:
	Vocs fazem tantos programas juntos e so todos programas de casais. Fico imaginando quem Jake levava a essas reunies, antes de me conhecer.
	Antes de voc?  Lisa pareceu incerta.  Jake nunca teve algum que durasse muito. Entretanto, no conheo este grupo h muito tempo. Mas Scot diz que foi sempre assim com Jake, pois ele sempre receava envolver-se de verdade. No que no houvesse candidatas.
	Sim, entendo. Um homem solteiro, atraente e...
	Rico?  completou Lisa, rindo.
	Bem, sim. Tudo isso. Fico pensando... Deve ter havido algum antes de mim.
	Havia. Eu.
	Voc!  Judy fitou a amiga, surpresa. Nunca conhecera um casal que se amasse tanto quanto Scot e Lisa, e ambos eram como uma famlia para Jake.
Lisa sorria.
	No  uma loucura? Jake havia me pedido em casamento, e quase aceitei, pois ele era to rico... S que no pude, pois no o amava. E, para dizer a verdade, ele tambm no. Hoje em dia, damos boas risadas quando nos lembramos daqueles tempos. E ento...  Lisa inclinou-se para a frente, com ar de quem iria contar um segredo.  Foi Jake quem me disse que eu estava apaixonada por Scot. Eu no sabia, nem Scot. Mas Jake percebeu. Ele  muito intuitivo. E to doce! Fico feliz por haver encontrado voc, Judy. Jake merece algum que o ame de verdade. E voc o ama. Percebo isso em seus olhos cada vez que olha para meu querido amigo.
Judy prendeu a respirao. Era to evidente assim? Imaginara que, se no o tocasse...
Precisava ser mais cuidadosa.

CAPITULO XI

Fora apenas uma leve presso em seu ventre, to suave que foi quase imperceptvel. Mas Judy sentiu. Aquilo a comoveu intensamente. Algo, dentro dela, estava vivo e chutando. Maravilhoso!
Colocou as mos sobre a barriga, segurando e protegendo aquele pequeno ser. Ento, sentiu de novo. Um beb... Vivendo e crescendo.
Um garoto? Com olhos azuis como o mar?
	Voc pode, Judy?
	O qu?  Ela olhou para Dris Stanford. Havia se esquecido de onde estava: sentada em um salo, no clube, com Lisa e Dris, esperando os maridos terminarem uma partida de tnis para se juntarem a eles para o almoo.
	E ento, Judy?  insistiu Dris.  Jake usou sua influncia como acionista da M & S para conseguir dois aparelhos de televiso. Esse leilo acontece h quinze anos e sou parte do comit que arrecada os brindes. Tenho de conseguir itens suficientes para atingir nossa meta. Apesar do trabalho,  divertido e todos temos prazer em comparecer e colaborar.
	Certo,  muito interessante. Voc vai adorar.  Lisa sorriu.
	Judy, estou falando da Construtora Crenshaw. O evento ser divulgado por toda a regio, o que se converter numa tima propaganda para seus negcios. Alm disso, voc poder deduzir do imposto de renda.
	Sim, bem, certo. Pensarei em algo  prometeu Judy, j de volta  realidade. Qual seria a contribuio ideal para uma firma de construes? Uma caixa de ferramentas bem equipada? Judy sorriu. Como se os milionrios que participariam do leilo fossem utilizar uma caixa de ferramentas...
	Bem, senhoras, esto prontas para o almoo?  Jake se aproximava, os cabelos ainda molhados. Terminada a partida, tomara um banho rpido, antes de juntar-se a elas.
Judy prendeu a respirao. Mal ouvia a conversa animada do grupo, enquanto se dirigiam ao restaurante. Imaginava um bebezinho de cabelos clareados pelo sol, olhos azuis e muito querido.
	Traga-nos uma garrafa de seu melhor champanhe  pediu Jake ao garom.  Temos de celebrar.
	Celebrar o qu?
	Nada de mais, Dris  respondeu Scot.  S a costumeira sorte de Jake.
	Voc perdeu tambm, Hal?
	Eu? Oh, s joguei para me distrair. No ousaria tentar desafiar um profissional.
Ento, as provocaes de praxe comearam:
	Claro que Jake venceu.
	 um profissional no jogo porque s faz isso.
Aquilo deixou Judy irritada. Jake era bom em esportes porque... Bem, porque era bom. Lembrava-se de como ele conduzira o Pssaro Azul, com preciso e habilidade. Ainda podia ver as mos fortes segurando os remos naquela noite, mantendo sob controle o bote inflvel, mesmo com as enormes ondas quase fazendo-os submergir. As mesmas mos que a haviam acariciado com tanta ternura.
Judy sentiu, de novo, o movimento no ventre, e colocou a mo sobre a barriga... Segurando, acariciando. Sentiu-se corar, e olhou para Jake, que estava sentado diante dela. Observou-o experimentar o champanhe, sorrindo. Scot e Hal ainda falavam sobre o playboy privilegiado. Judy sabia que estavam brincando, mas, de algum modo, naquela manh, as brincadeiras a irritaram. Por que Jake no se defendia, em vez de ficar parado ali, sorridente?
No meio da refeio, o garom trouxe uma mensagem para Jake. Ele a leu e desculpou-se, dizendo que precisava dar um telefonema.
	Voltarei em um minuto.
Assim que Jake se afastou, Hal olhou para Scot.
	Aposto que  aquele chefe da associao que quer que Jake vote a favor da unio de duas empresas de seu grupo.
Ambas esto quase falidas, e seria timo para os acionistas se pudessem juntar-se, pois atuam no mesmo mercado e utilizam a mesma mo-de-obra.
	E por que Jake iria contra uma deciso to lgica?  perguntou Lisa.
	Porque seriam obrigados a fazer um corte significativo de pessoal. Jake no quer aumentar o nmero de desempre gados que j assola o pas  explicou Scot.
Judy sentiu-se orgulhosa pelos princpios humanitrios do marido. Tornou a acariciar a barriga, torcendo para que o filho, ou a filha, herdasse as qualidades do pai.
Jake voltou, com expresso preocupada.
	Desculpem-nos, mas Judy e eu teremos de partir. Preciso viajar para Nova York agora.
Judy sempre fora mignon, e os vestido largos e os agasalhos enormes eram confortveis. Mas, em meados do ms de novembro, j no conseguia disfarar o tamanho do ventre, devagar, mas sempre, crescia.
	E nunca nos disse nada!  reclamou Dris, observando-a com ar crtico.  Deve estar de trs ou quatro meses.
	Mais ou menos.  Judy perguntava-se por que estava sendo to evasiva. Na pior das hipteses, se eles contassem os dias, pareceria que ficara grvida na noite de npcias.
	Por que tanto segredo? Se fosse eu, estaria gritando a plenos pulmes para a cidade toda saber. Por que no nos contaram antes?
	Acho que fiquei um pouco encabulada, Lisa. Ficar grvida to cedo...  Judy admitiu. Pelo menos, aquilo era verdade.
	Bem, agora j sabemos. Precisamos sair para comprar roupas de gestante  Lisa props.  Talvez adquira alguns vestidos para mim tambm. Pode ser que essa onda seja "contagiosa"...
Divertiram-se muito fazendo as compras, e Judy arrependeu-se por no haver contado antes s amigas sobre a gravidez. Elas ficaram to entusiasmadas com a notcia que conseguiram envolver Judy, que passou a encarar seu estado com mais naturalidade.
Tirava os pacotes do jipe quando o Porsche de Jake estacionou a seu lado. Ele desceu depressa para ajud-la a descarregar as sacolas.
	Parece que andou fazendo compras  comentou, risonho.
	Foi necessrio. Eu j no entrava mais em minhas roupas.
Jake sorriu, tentando equilibrar todos os pacotes.
	Parece que, de agora em diante, voc ter muito o que vestir.
	Tudo culpa de Lisa e Dris. Eu no precisava de tanta coisa, mas elas... Deixe que eu ajudo.  Judy abaixou-se, com alguma dificuldade, para apanhar o embrulho que Jake deixara cair.  Elas me foraram. Disseram que eu no devia ficar usando as mesmas roupas, e compraram modelos para todas as ocasies, desde trajes para o trabalho at vestidos de noite.
	Parece um timo plano. Vai mostr-los para mim?  Jake virou-se para encar-la.
	Gostaria de v-los?
	Claro! Por que no? Largue isso, eu carregarei tudo. Vamos para a biblioteca. Acenderei a lareira e teremos um desfile de modas.
	No. Leve os pacotes para meu quarto. No quero ficar arrastando tudo pela casa.
	Est certo. Acenderei a lareira de seu quarto.
Talvez devesse ter ficado com a biblioteca, pensou Judy, subindo as escadas. O quarto era mais... ntimo? Tolice! Na biblioteca, no teria onde se trocar.
Judy foi para o closet e colocou os vestidos e as calas sobre uma prateleira. Dris e Lisa no haviam deixado escapar nem um detalhe. Tinha at sapatos baixos e confortveis para complementar os trajes.
Ela resolveu comear o desfile com as roupas mais simples e guardar para o final as de noite.
	Feita especialmente para a trabalhadora gestante  anunciou, alegre, quando saiu do closet.  Esta cala verde de l...
Judy parou, incapaz de pronunciar outra palavra. A luz das lmpadas e do fogo crepitante tornara o ambiente acolhedor, como uma toca contra o frio cortante do inverno. Por que nunca pensara em acender a lareira antes? Seria porque Jake no estava ali, como agora, reclinado em uma poltrona, bebendo conhaque, esboando aquele sorriso, olhando para ela com aqueles olhos azuis profundos? O corao de Judy parou de bater por alguns segundos.
	Muito bem, continue. Cala de l que...  ele a incentivou.
Judy fez um grande esforo para controlar os pensamentos e concentrar-se nas palavras.
	Cala de l verde  ela repetiu, dando uma volta, como fazem as modelos profissionais , com um casaco de cashmere combinando, criado para disfarar a barriga saliente.
Jake apoiou o copo em uma mesinha e bateu palmas.
	Lindo! Vamos lev-lo, madame.
Jake sempre conseguia faz-la sentir-se  vontade.
Judy saiu para trocar de roupa.
O desfile foi to divertido quanto as compras. Mais ainda. Judy desfilou, mostrando cada conjunto, com profissionalismo. Jake admirou e aprovou todos eles.
Quando, por fim, Judy colocou o vestido de noite, em um tom esverdeado, bem claro, sentiu-se triste porque aquele momento mgico estava terminando. Olhou-se no espelho, para checar cada detalhe do visual. Mesmo uma mulher grvida podia ser sensual, concluiu, satisfeita.
Quando apresentou-se a Jake, ele no sorriu, nem aplaudiu. Levantou-se com expresso sria e fitou-a. O olhar foi to profundo que Judy sentiu como se a estivesse tocando. Aquilo deixou-a zonza e fez sua pele arder de desejo.
No conseguia se mover. Estava imobilizada por aqueles olhos azuis, que analisavam cada palmo de seu corpo, atravessando o tecido fino e despertando-a para a vida.
	Isso no  justo  reclamou Jake, aproximando-se dela e afastando as mos que Judy colocara sobre o ventre.  Futuros pais tm direitos.
Jake puxou-a e acariciou-lhe a barriga.
Judy no conseguiria impedi-lo. Seria como tentar parar de respirar. Ou tentar deter aquela deliciosa sensao de calor que invadiu seu corpo. Um profundo desejo a arrebatou, exigindo uma satisfao urgente.
Mais premente do que a paixo inebriante era a gentileza do toque de Jake. As carcias.
Eram casados, no eram?
Ela estava esperando o filho dele, no estava?
E Judy no conseguiria conter o desejo ertico que cresceu dentro dela, assim como no poderia impedir que a terra girasse. Enlaou-o pelo pescoo e deixou que Jake a carregasse para a cama.

CAPITULO XII

Judy dormiu at tarde na manh seguinte. Quando o rudo da chuva, batendo contra a vidraa, tentou acord-la, ela resistiu. Manteve os olhos fechados, recusando-se a despertar daquele sonho. O toque gentil de Jake, as palavras de amor sussurradas... O xtase da entrega. A alegria.
O barulho aumentou. Judy sorriu. No fora um sonho! Os braos de Jake envolvendo-a e seu amor haviam sido reais.
Judy espreguiou-se, feliz, estendendo a mo para o lado da cama onde Jake se encontrava deitado. Abriu os olhos. Ele no estava l.
Sentou-se, sentindo a falta dele, mas sem ficar perturbada. Procurou ouvir se Jake estava no banho, ou, talvez, na cozinha, fazendo caf. Os Hunt tinham folga nos finais de semana. Judy imaginou como seria delicioso passar o domingo inteiro sozinha com o marido. Ansiosa em v-lo, levantou-se e enrolou-se no roupo.
Achou um bilhete pregado no espelho, onde ela no poderia deixar de v-lo.
"Bom dia, meu amor! Voc  to linda, to adorvel, to especial para mim! Odeio ter de abandon-la, justo nesta manh, mas os negcios me chamam... em Nova York. Voc, minha mais doce tentao, fez com que eu adiasse a viagem, prevista para ontem. Ainda bem que no fui. Tivemos uma noite incrvel! Compatvel, no acha? Precisamos conversar. Continue assim, maravilhosa, at meu retorno, na tera-feira. J."
Judy beijou o bilhete. "Bom dia, meu amor!" Ele a amava. Era especial para Jake. Decorou as palavras, relembrou os prazeres que sentiram juntos e flutuou em uma satisfao que era nova para ela. No, no apenas satisfao. Estava absur-
damente feliz. Delirante. Seu mundo, mais ou menos equilibrado, havia encontrado seu eixo. Jake a amava. As palavras de afeto sussurradas na noite anterior e as demonstraes de carinho no deixavam margem para dvidas. E Judy tambm o amava, mas do que imaginara poder amar algum.
Apanhou o vestido de noite que fora deixado no cho e segurou-o contra as faces. "Voc  o responsvel por isso tudo! Obrigada, obrigada, obrigada!"
Desceu as escadas, quase danando, e seguiu at a cozinha para preparar o desjejum. Aquela era a sua cozinha. Sua casa. Morava nela com o marido, que a amava. Jake crescera ali. O filho deles tambm cresceria. Judy passou a mo pelo balco, sentindo-se assolada por um forte sentimento de posse. Tomaria conta daquela casa. Do filho. De Jake. Seriam felizes!
O telefone tocou, assustando-a. Era Lisa.
	Mostrou as roupas para Jake?
	Sim.
	E ele gostou? Tenho certeza de que sim. Ficaram lindas em voc. Sobretudo, o vestido de noite. O que Jake disse?
"Que eu sou o amor de sua vida. Que eu sou especial."
	Que... gostou de todos.  Judy esquecera por completo o que ele dissera sobre as roupas.
	No ousei mostrar as minhas a Scot. Ele iria pensar que estou grvida e ficaria desapontado quando soubesse que no estou. Oh, Judy! Gostaria... Vou segurar aquele vestido todos os dias e fazer um pedido.
	Tambm pedirei por voc, Lisa.
Conversaram mais um pouco sobre assuntos banais e, quando desligaram, Judy se julgava a herona de um conto de fadas. Agora, fazia mesmo parte do grupo, era uma esposa satisfeita, como Lisa e Dris. A ideia foi confirmada por um chute do beb. Judy sorriu.
	Certo, tambm estou morrendo de fome  murmurou, abrindo a geladeira para pegar ovos e bacon.
Desejara passar o domingo com Jake, mas pensar nele era quase to bom quanto.
A chuva ainda persistia e, l fora, fazia um dia frio e cinzento. Mas Judy no se sentia deprimida, ou sozinha, enquanto tomava o caf e lia o jornal.
O telefone tocou outra vez.
Devia ser Dris, pensou Judy, atendendo. Ou, talvez, Jake. O pensamento a deixou exultante.
No era Dris, nem Jake. Era uma voz feminina, baixa e musical, que Judy nunca ouvira antes. Perguntou por Jake.
	Ele ainda est a?
	Aqui?  Judy sentia-se confusa.  No, no est.
	J foi para Nova York?
Decerto, era algum da empresa, interessada na reunio, pensou Judy.
	Jake partiu esta manh. Deve estar...
	Esta manh! Droga! Deveria ter chegado aqui ontem  noite.
Judy tinha de perguntar:
	Quem est falando, por favor? Quer deixar um recado?
	Oh, aqui  Mel. Quem  voc? Deixe para l. No tenho recado. Falarei com Jake quando ele chegar aqui. Obrigada.
A mo de Judy apertou o fone com fora durante muito tempo ainda depois de Mel desligar.
Mel... Judy visualizou os shorts Armani e a camiseta que havia encontrado em uma gaveta no Pssaro Azul. Viu as calas e os vestidos guardados nos gabinetes.
O zunido em suas orelhas vinha do fone em sua mo.
Claro, fora por isso que Jake viajara. Para se encontrar com Mel.
"Direto da minha cama!" O choque a fez encolher-se. Sentou-se em uma cadeira, abraando os joelhos, tentando acalmar a tempestade de fria que rugia dentro de si. Ele mentira. Fora trada. Odiava-o. Odiava a mulher de voz melosa que...
Mel. At que enfim ela aparecera. Ou ser que nunca estivera distante?
Ento era isso? S sexo. Nada mais. Uma aventura de uma noite. No... Duas.
"Ser que nunca fui nada alm disso?" A vergonha da constatao a dominou ao lembrar-se das palavras de Lisa: "Jake nunca teve algum que durasse muito".
A no ser Mel. Oh, todas aquelas viagens para Nova York a pretexto de negcios...
A dor apunhalava seu peito como uma adaga, dilacerando-lhe o corao. Queria quebrar algo. Mas nada ali lhe pertencia. No tinha esse direito.
Arrumou a cozinha e dobrou o jornal. Deixou o local to imaculado quanto o havia encontrado.
Em seu quarto, fitou a cama desarrumada e as cinzas na lareira. Sentiu frio.
Tirou o bilhete do bolso do roupo e o releu.
"Bom dia, meu amor!", no era a mesma coisa que "Eu te amo".
As lgrimas quentes inundando-lhe os olhos no permitiram que continuasse lendo. No podia se sentir furiosa com Jake. Ele podia ter Mel ou qualquer outra mulher. Afinal, cumprira sua parte no trato.
"No estou lhe pedindo que mude seu estilo de vida", ela dissera. "Tudo o que peo  que fique casado comigo por alguns meses."
Aquilo fora em junho. J estavam em novembro. Chegara o momento de deix-lo livre. 
Jake cancelou a ltima reunio. Estava ansioso para voltar para casa, para Judy.
Ela no estava l quando chegou, apesar de ser mais de cinco horas. Acendeu a lareira da biblioteca, caminhou como um zumbi pela sala e esperou. Quando ouviu o barulho do carro da esposa entrando na garagem, correu para receb-la no hall. Judy usava a cala de l verde. Na verdade, no disfarava muito bem a barriga saliente. O rosto dela estava plido, os cabelos, desalinhados pelo vento. Adorvel!
	Ol, meu amor  cumprimentou Jake, aproximando-se para abra-la.
	Ol.  Judy sorriu e passou por ele.  Deixe-me tirar estas roupas e lavar as mos. Sadie deve estar nos aguardando para servir o jantar.
Jake esperou at que ela retornasse.
	Ento, como foi a viagem?  Judy perguntou, com o mesmo sorriso artificial estampado no rosto.
	Tudo bem.  Jake tentava imaginar se ela estaria mesmo interessada.
Sempre comiam na saleta quando estavam sozinhos. Sempre conversavam sobre amenidades. Ento, o que estava diferente? Por que Judy falava tanto, com ar de falsa alegria? Aquilo o deixava desconfortvel, como se fosse um hspede indesejvel em sua prpria casa.
Quando terminaram a refeio, Judy fez meno de subir direto para o quarto, mas Jake colocou-se  sua frente, abrindo a porta da biblioteca e indicando que entrasse.
	Precisamos conversar.
Por um minuto, ela pareceu hesitar, como se fosse recusar a proposta, mas acabou concordando. Entrou e ficou em p, atrs do tabuleiro de xadrez, como se quisesse se proteger. Parecia pequena, vulnervel e... magoada?
	Qual  o problema, Judy?
	Problema? O que quer dizer?
	Bem, para comear... por que no me deixa toc-la?
A pergunta direta atingiu-a como um raio. No esperava que Jake fosse to objetivo.
	Porque...
"Porque quando voc me toca, fico perdida. Esqueo a razo, a dignidade e Mel. S penso em voc e no quanto o desejo... A qualquer hora, em qualquer lugar, em qualquer circunstncia!"
	Porque podemos acabar cometendo erros, Jake.
	Erros?
	Como o da noite de sbado.
	Pensei que houvesse gostado do que aconteceu.
	Sexo  sempre uma experincia agradvel.
Jake no se deixou abalar com a resposta.
	J fez comparaes para provar essa afirmao?
Judy enrubesceu.

	Eu... Oh, esquea.  Fitou-o, com ar resignado.  Isto no  uma conversa. E uma inquisio. Por que est me tratando assim?
	Apenas tento entender. O que est dizendo?
	Escute, tudo o que digo  que somos seres humanos, com desejos fsicos que podem... Podem nos criar problemas.
	Problemas?
	Ns acabamos nos envolvendo nessa histria de casamento de faz-de-conta. Pelo nosso bem, mantivemos uma fachada perfeita. Mas  s uma fachada.
Judy passou a lngua sobre os lbios ressecados. Jake parecia confuso. Ser que no compreendia que ela estava tentando libert-lo sem acusaes ou recriminaes? No estava gritando ou acusando-o de tra-la. Apenas o liberava do compromisso que ele assumira contra a vontade. Tinha de deix-lo em paz. Se no o fizesse...
Judy piscou, tentando conter as lgrimas.
	 hora de darmos um fim nisso. Estamos nos envolvendo demais.
	Judy, escute.  Jake deu a volta na mesa, os braos estendidos na direo dela.
	No me toque!
Judy no percebeu que havia gritado, mas Jake, sim. Parou de sbito. Deus, ele nunca forara uma mulher a nada em toda sua vida. Por que aquela reao?
	Judy, o que est errado? Gostei de termos nos envolvido. Achei que voc tambm estava satisfeita.
	No estou. Cansei de todo esse fingimento. Cansei de voc.  Judy calou-se, olhando-o com expresso horrorizada.  No, no quis dizer isso. Voc foi maravilhoso. Um timo companheiro.
Admiro seu comportamento. De verdade. Mas preciso voltar para o lugar a que perteno. Nosso acordo foi de apenas alguns meses.
Vamos terminar com isso, Jake. Por favor. Poderamos continuar esta conversa mais tarde? Estou exausta.
Jake afastou-se para deix-la se afastar e ficou encarando a porta que ela fechou ao passar. Nunca havia se sentido to abandonado em toda sua vida.
Judy falara srio. No queria mais aquele casamento. Ou ele.
Jake no estava acostumado a ser rejeitado. Muito pelo contrrio. O problema sempre fora se as mulheres desejavam a ele ou seu dinheiro.
Judy deixara claro que no desejava nenhum dos dois.
Judy mergulhava no trabalho todos os dias. Retirava-se para o quarto,  noite, evitando a biblioteca. Evitando ficar sozinha com Jake.
O difcil era apag-lo de sua mente, no se lembrar do sorriso provocante cada vez em que ganhava dela no xadrez ou da expresso surpresa nas poucas vezes em que ela lhe dera xe-que-mate. Sentia falta daqueles momentos de companheirismo, do som da voz de Jake, de sua risada, de sua cumplicidade. Desejava os braos dele ao redor de si. No era fcil deixar de am-lo, quer ele estivesse prximo, quer distante.
Jake permaneceu afastado durante os dias que seguiram  conversa na biblioteca. Um campeonato de golfe na Flrida, uma corrida de barcos no Mxico... Negcios ou prazer. Judy nunca perguntava o motivo das viagens.
Mas jamais deixava de sentir a falta dele.
Jake tinha de se afastar. No era fcil notar que Judy o evitava o tempo todo e deixar de olhar para ela. Por mais atraente que a houvesse considerado naquela semana no Pssaro Azul, no era nada se comparado ao modo como se sentia agora. Judy estava ainda mais bonita. Era como se houvesse desabrochado com a gravidez, os cabelos mais dourados, as faces mais coradas, um ar de serenidade nos lindos olhos azuis. Agora, porm, algo estava perturbando aquela placidez. "Tem trabalhando muito", Jake pensou.
Jake havia ligado para Charlie e Jim, que j estava de volta  ativa. Sugerira que aliviassem a carga de trabalho dela e deixara seu telefone para que o contatassem no caso alguma emergncia. Tudo bem. Judy no queria sua ajuda, mas era sua esposa e esperava um filho seu.
De qualquer modo, sentia-se compelido a tomar conta de Judy. Sentia-se mais prximo dela do que jamais se sentira com qualquer outra mulher. Talvez fossem as confidncias que haviam trocado, a intimidade...
Intimidade? "Apenas sexo", ela dissera. Bem, Jake era muito mais experiente que Judy e sabia que era muito mais do que isso.
"Para voc. No para ela."
No acreditava naquilo. No depois do modo como Judy o abraara e sussurrara seu nome inmeras vezes. Ela o amara!
Fora levada pela paixo, talvez. Mas e depois?
"No me toque!", ela gritara aterrorizada.
Jake no procuraria mant-la a seu lado contra a vontade dela. Judy estava certa. Haviam feito um acordo e agora... Talvez fosse o momento de anul-lo.
Mas no era fcil.
Continuaram saindo com os amigos, sempre que Jake estava na cidade. Desfrutar a companhia do grupo era muito mais do que uma diverso. Era como se eles os protegessem, dando-lhes abrigo contra as incertezas de um futuro solitrio e amedrontador.
No era certo fazer aquilo. Deveriam estar preparando os amigos para a separao por incompatibilidade. Deveriam demonstrar que o casamento no ia bem. Mas, de algum modo, o fato de ficarem com o grupo, compartilhando das risadas e brincadeiras, fazia com que se sentissem mais prximos, com que trocassem olhares de cumplicidade cada vez que um comentrio trazia-lhes lembranas ntimas.
Deveriam ter marcado uma data, feito alguns acordos para o processo de separao. Judy precisaria procurar um apartamento para ela e o beb. No queria voltar para a casa dos pais. Talvez pudesse ocupar uma das propriedades de Richmond.
Judy sabia que deviam estar se preparando. No entanto, nenhum dos dois conseguia tomar a difcil iniciativa.

CAPITULO XIII

Judy, era "contagioso"!  A voz exultante  de Lisa soou do outro lado da linha.
	Do que voc est falando, querida?
	Oh, estou to feliz por t-lo comprado!  o vestido da sorte. Claro que no poderei us-lo por um bom tempo, mas...
	Lisa! Voc est grvida?!
	Gravidssima! Esperando um filho! J estou de dois meses, segundo o dr. Lacey. Mal pude acreditar!
	Essa  uma notcia maravilhosa! Estou to feliz por vocs!
	Eu tambm. Quer saber o que mais?  Lisa baixou o tom da voz, quase sussurrando:  Foi mesmo o vestido. Contei os dias. Acho que aconteceu naquela noite. Lembra-se de quando fomos fazer compras e pedi a roupa de gestante? Disse a voc que no a mostraria a Scot, mas acabei experimentando-o na frente dele. Scot disse que eu estava adorvel e comeou a me beijar e ns... Oh, Judy, tenho certeza de que engravidei naquela noite!
Judy sentou-se, abismada. Talvez houvesse alguma mgica naqueles trajes. Aquela fora a noite em que desfilara para Jake, e ele... Eles... Fora especial. E agora...
	Judy! Judy, est me ouvindo?
	Sim.  Endireitou os ombros, tentando voltar  realidade.  Estou ouvindo.
	Foi h dois meses, no foi? No incio de novembro.
	Acho que sim.
	Viu s? Foi o vestido da sorte!  Lisa riu.  A noite da sorte, no ? De qualquer modo, estou felicssima. Scot tambm. Tive de impedi-lo de sair distribuindo charutos por a, desde j. Ele quer um menino. Eu no me importo.
	Quer dizer que ficar com o beb, no importa o sexo?
	Engraadinha! Oh, Judy, talvez voc tenha um menino, e eu, uma menina, ou vice-versa. Se isso acontecer, poderemos fazer um contrato para que se casem aos dezoito anos. No, aos vinte e cinco, como nos velhos tempos. O que acha?
	Acho que voc enlouqueceu.  A voz de Judy estava trmula.
Os filhos delas nem sequer frequentariam as mesmas festas de aniversrio. At l, Judy estaria... Deus sabia onde, mas, com certeza, longe do grupo. Engoliu em seco.
	No ouviu as notcias, Lisa? Estamos quase no ano 2000, e as crianas so .criadas para terem a prpria liberdade de escolha.
	Sei disso. Estou apenas brincando, sua boba. Scot disse que eu deveria jogar fora todos aqueles livros sobre bebs e deixar nosso filho crescer em paz.
Judy riu.
	Mas no seria voc se no estivesse se preparando, fazendo planos... Alis, agora sou eu que os farei.
	Para qu?
	Para a festa que celebrar essa gravidez to especial e desejada.  Era o mnimo que poderia fazer por aquela mulher que a havia recebido to bem no grupo de amigos quando Judy no passava de uma tmida recm-casada.  S preciso que voc me diga quando.
Mas Judy no podia continuar para sempre daquele modo, fingindo fazer parte de um grupo, parte da vida de Jake. No suportava mais aquilo. E tinha certeza de que Jake tambm estava no limite. Ele parecia to infeliz! Cada dia que passava, Judy sentia ainda mais a intensa necessidade de deix-lo livre. Queria v-lo bem.
Ento, foi tambm por ele que Judy comeou a se preparar para a separao. Escolheu uma das casas de Richmond. Era pequena, tinha dois quartos e um banheiro. Ficava no final de uma vila, um lugar seguro para crianas crescerem. Havia um grande jardim e um quintal espaoso, que, como o resto da casa, precisava de reparos urgentes. Mas seria divertido torn-la habitvel, bonita e confortvel o suficiente para ela e o beb. Construiria outro quarto e outro banheiro, pois precisaria de espao para uma bab, j que no pretendia parar de trabalhar.
Bem, no poderia fazer nada at o incio da primavera. No momento, a casa em runas estava coberta de neve, o que tornava impossvel a reforma. Teria de alugar um apartamento ou ficar na casa de Jim e Alicia at terminar a reforma.
Eles haviam viajado para a Flrida, por um ms. Judy se alegrara por estarem ausentes, pois relutava em contar-lhes sobre a divrcio. Suspirou. Pobrezinhos... Mal haviam acabado de contar a todos os amigos e conhecidos sobre o repentino casamento, e agora...
A caminho do trabalho, Judy lembrou-se de que havia mandado colocar em todas as suas casas uma placa de venda. No queria que aquela que decidira ocupar fosse vendida. Precisava avisar Charlie imediatamente.
Encontrou-o em uma das residncias, supervisionando o trabalho do marceneiro.
	Charlie, no vou mais vender a casa da rua Brady, nmero dez  ela avisou durante a pausa para o caf.
	Por qu?
	Pretendo morar nela. Eu...  Olhou fixo para a xcara que tinha nas mos.  Escute, no quero que esta notcia se espalhe, mas estou planejando... pensando em deixar Jake.
	No! Isto , eu pensei...  Charlie no conseguiu conter a surpresa.  Desculpe-me. Ele j veio aqui vrias vezes, voc sabe, e achei... Bem, Jake me pareceu ser um sujeito decente.
	Sim, . Sem dvida.  Judy no queria que ningum pensasse o contrrio.   mais do que decente.  gentil, inteligente, generoso e...
Bem, ela precisava encontrar argumentos para justificar a separao.
	No tem nada a ver com Jake. Nada pessoal. E que temos diferentes estilos de vida. No acredito que conseguirei me habituar com o estilo dele.
O moral de Judy estava baixo, mas no ofuscaria a festa de Lisa. Estava determinada a torn-la to festiva e divertida quanto a recepo que haviam preparado para recepcionar Judy.
	Voc no estar viajando, no ?  perguntou a Jake, duas semanas antes da data.
	J terei voltado. No perderei a comemorao. Scot me mataria se desse prioridade ao golfe. Alm disso, Lisa  muito especial para mim. Ela est nas nuvens, no?
	Est.  Judy suspirou. Como sua vida havia mudado!
Bem, no permitiria que o que acontecera quase sete meses atrs embaasse a felicidade de Lisa.
Judy planejou tudo com muito cuidado, selecionando o lugar ideal e a cor tema: o neutro amarelo. Comprou bexigas e outros enfeites. No saiu para trabalhar no dia da festa, para ficar ajudando Sadie para que tudo estivesse pronto na hora prevista.
	Desa dessa cadeira, menina!  Sadie gritou.  Poder cair, com todo esse sobe e desce. Alm disso, j pendurou bexigas demais.
Judy esboou um sorriso tmido e a obedeceu. Tinha conscincia de que j fizera o bastante. Alm do mais, seria uma reunio para um grupo limitado. S seria uma festa especial porque seria sua derradeira. Era lgico que ningum sabia. Nem mesmo Jake.
Onde ele estaria? Prometera que voltaria da Flrida em tempo. Mas s faltavam trs... no, duas horas e meia para a festa. Judy ficou atenta para ouvir o rudo do motor do carro dele, imaginando por que estaria atrasado. Culpa de Mel? Judy no suportaria se ele no chegasse em tempo.
	Por que no sobe e descansa um pouco?  Sadie sugeriu.  Est tudo pronto, e s Deus sabe o quanto voc precisa de repouso.
Judy assentiu. No havia mais nada a fazer ou providenciar, estivesse Jake ali ou no.
Quando comeou a subir as escadas, ouviu o carro dele chegando. Apressou o passo, no querendo que Jake visse em seu rosto a expresso de alvio e satisfao. Seu marido chegara. Agora ela poderia descansar e, talvez, at dormir um pouco.
S que no conseguiu. Estava muito excitada e nervosa. Ficou deitada, ouvindo os rudos no quarto ao lado.
Jake movimentava-se. Estaria desfazendo as malas?
Judy ficou se revirando na cama, incapaz de relaxar. Sentiu-se feliz ao constatar que era hora de se vestir.
Embaixo da ducha, foi acometida por uma dor que a fez debruar-se e respirar com dificuldade. Encostou-se na parede
do boxe. Era como uma clica menstrual, reconheceu, respirando melhor quando a dor amainou. Com certeza no era uma clica. A musculao estava dolorida. Bem que Sadie dissera que ela exagerara no sobe e desce. Deixou a gua quente massagear-lhe os msculos.
Vestiu o traje de noite, verde-claro, e olhou-se no espelho, ansiosa. Havia engordado, mas no muito. Estava contente por haver colocado aquela roupa. Era um smbolo dos bons tempos.
Pensando melhor, no houvera tempos ruins. Nem brigas, nem discusses. Ela e Jake viveram juntos, em harmonia, como qualquer casal feliz.
Sorriu com amargura. Se, de verdade, fossem um casal feliz, teriam brigado bastante. Judy teria derrubado a casa por causa de Mel!
Bem, no era hora de ficar pensando naquilo. Tinha a festa pela frente.
Passou o batom, penteou os cabelos e desceu. Os convidados chegariam logo.
	Ser uma comemorao e tanto!  Jake admirava a decorao que ela fizera.
Judy olhou para ele. No esperava que Jake j tivesse descido. No se preparara para ver os cabelos queimados pelo sol e a pele bronzeada. O mesmo visual que tinha na poca do Pssaro Azul. Ser que Mel estivera com ele na Flrida? Judy sentiu uma pontada de cime e, ao mesmo tempo, o corao batendo de alegria. Jake estava ali.
	Est muito bonito, Judy. Scot e Lisa vo adorar. Obrigado.
Teria Judy preparado a festa para provar que ela e Jake pertenciam um ao outro, que... Ela fez uma careta, sentindo aquela dor contundente de novo.
	Algum problema, querida?
	Nada.  No iria permitir que uma indisposio atrapalhasse a festa.  Isto est torto  ela disfarou, arrumando um arranjo de flores.  Oh, a campainha! Voc atende?
A festa foi divertida, bem tpica do grupo, com todos falando ao mesmo tempo e escarnecendo um do outro. Mas, para Judy, pareceu interminvel. Sentia-se muito cansada. Tentou no demonstrar, participando das brincadeiras cujo alvo era Scot e Lisa. O casal estava recolhendo apostas sobre o sexo do beb.
	Aqueles que acertarem, ganharo  determinou Scot. 	E os que errarem, pagaro.  Olhava para Lisa, com ar de encantamento.
E no era de se estranhar, pensou Judy. Lisa estava mais adorvel do que nunca, irradiando felicidade.
De repente, Judy foi acometida por uma forte mgoa. Ningum ficara feliz com sua gravidez. Ningum.
Oh, Deus! Ela estava com inveja do feliz casal! Eles no tinham culpa por haver se envolvido naquela situao. O que havia de errado com Judy? Talvez fosse a dor que a torturava de tempos em tempos. Ou, talvez, Jake, que a olhava com ar de aprovao, o que a deixava ansiosa. Tudo corria bem, no corria? Todos pareciam alegres.
	Muito bem!  Judy gritou, atraindo a ateno de todos. Preparem-se. Fui eu quem fez a sobremesa.
Sadie entrou, trazendo uma torta de limo. Foi um sucesso. Todos a experimentaram.
	Soberba!  Jake declarou e mandou-lhe um beijo.
Judy enrubesceu.
Enquanto tomavam o caf e o licor na sala de estar, a conversa girou sobre a viagem de Jake  Flrida.
	Rapaz de sorte! Tomando banho de sol enquanto ns, pobres mortais, batalhvamos em um escritrio, debruados sobre uma escrivaninha.
	Voc no esteve em Londres no ms passado, Scot?  Jake perguntou.  Parece que sempre vai para algum lugar. Bermudas, Riviera Francesa ou qualquer outro canto onde se possa organizar alguma conferncia de negcios.
	No tem muita diferena entre uma sala de conferncias e uma escrivaninha.  Scot sorriu.   sempre trabalho.
- Deve ser enfadonho demais!  Jake satirizou, com simpatia.
	Enquanto isso, ns no mantemos o bronzeado como voc, enquanto treina suas tacadas de golfe. J tentei lhe explicar, meu garoto, que h uma grande diferena entre ns, a plebe, e vocs, os ricos.
Judy sentia uma irritao crescente. No estava preocupada em saber quem venceria aquela discusso banal. Mas no gostava quando diziam que Jake sempre vencia porque no fazia nada na vida, seno ficar jogando. Ele fazia muito mais. Era bastante modesto sobre as maravilhosas coisas que realizava, e ningum tomava conhecimento. Judy tinha vontade de chacoalh-lo. Jake ficava sentado ali, apenas rindo, enquanto Scot, Al e Stan o criticavam.
	Parem com isso!  Judy ficou to surpresa quanto os demais ao se ver em p, os punhos tensos.  Jake no nenhum playboy. No fica sentado atrs de uma escrivaninha, mas contribui mais para a economia mundial do que a maioria das pessoas. Foram vocs que disseram que ele salvou o emprego de dois mil e quinhentos trabalhadores, pessoas com famlia para alimentar, crianas para educar. Deveriam ficar felizes por ele ser rico, gentil, inteligente, generoso, e se preocupar com o bem-estar das pessoas. Jake  como um maestro, com uma batuta mgica, dando espao s novas ideias. No s para grandes empreendimentos, mas para pessoas simples que no tm recursos... como o engenheiro que inventou o carro eltrico que nos libertar da poluio, ou os dois jovens que agora administram a agncia de viagens. Se no fosse Jake, eles ainda estariam em alguma profisso marginal, e no dirigindo uma empresa e criando empregos.
Todos a olhavam, atnitos. Judy no conseguia parar:
	E tem mais. Vocs deveriam ficar contentes porque Jake joga. Conheceu o engenheiro em um campeonato de golfe e aqueles dois rapazes em uma partida de basquete. Porque ele ouve at um adolescente que quer entrar no time da escola.
 Uma dor aguda a obrigou a colocar a mo no ventre e fazer uma careta. O corao bateu acelerado quando se deu conta de que todos a encaravam.
O que acontecera com Judy? Desafiava aquele pessoal que conhecia Jake muito melhor do que ela e que s estava brincando. O que estariam pensando dela? Que tivera um acesso de mau humor?
Judy esboou um sorriso tmido, sentindo-se ridcula.
	Bem, rapazes, acabou o discurso. Eu s queria ter certeza de que vocs apreciavam meu marido.  Judy olhou para Jake.
Ele estivera em p, junto  lareira, mas agora se encontrava sentado, com o olhar fixo nela. Judy olhou para baixo, desejando poder apagar tudo o que dissera.
Ficou aliviada ao ouvir a risada de Stan.
	Acho que aprendemos a no falar mal de Jake quando Judy estiver por perto.
	Exato  Lisa completou.  Estou feliz por estar conosco, Judy. Sempre procurei fazer com que deixassem Jake em paz.
Judy sorriu, sentindo-se um pouco melhor, alegre por eles haverem aceitado, sem se ofender, o seu discurso.
	Sem mgoas, sra. Mason.  Scot fez uma mesura.   que temos de fazer Jake descer do pedestal de vez em quando. Afinal, tudo o que ele faz  bem-feito.
Judy sorriu para ele.
	Oh, Scot...
Outra dor a apunhalou. No era muscular. Mas no era hora ainda, pois no completara os sete meses. Deus! Ser que iria perder o beb?!

CAPITULO XIV

Judy sentiu, durante o resto da noite, como se estivesse envolta por uma espessa nvoa. No entanto, riu e brincou com os convidados, ignorando os repetidos espasmos, negando-se a aceitar o que estava acontecendo. Era muito cedo. No iria perder o bebe. De jeito algum.
Como saber, no entanto? Deveria observar o intervalo entre as dores. Aconteciam a cada meia hora. Ser que persistiriam pelos prximos dois meses?
	No desista  pediu ao beb dentro dela.  Fique firme. Por favor.
Os convidados estavam indo embora. Judy ficou em p, ao lado de Jake, para, sorridente, despedir-se deles e receber os agradecimentos. Sentiu-se aliviada. Depois, iria para o quarto se deitar e as dores acabariam.
	Voc tem uns minutos para mim, Jake?  Ela ouviu Al dizendo.  Preciso de alguns elementos para aquela conta que estou abrindo.
	Com certeza  Jake respondeu.  Por que voc e Ada no dormem aqui? Amanh de manh ns poderemos...
	No posso. Terei uma reunio de diretoria logo na primeira hora. Precisamos voltar para Dover ainda hoje.
	Droga, Al!  Jake lamentou.  Voc sempre precisa das coisas para ontem.  Mas acabou concordando, como sempre.  Tudo bem, vamos  biblioteca.
Jake nunca se negava a ouvir, Judy pensou quando ela e Ada os seguiram. Mas Jake virou-se para a esposa.
	Voc est cansada, Judy. V para o quarto. Ada no se importar.
	Lgico que no  disse Ada.  Sei que precisa repousar. Suba, e eu ficarei com os rapazes para me certificar de que Al no ocupar muito o tempo de Jake. A festa estava tima, querida  acrescentou, beijando a face de Judy.
Aliviada, Judy recolheu-se. Mas registrou a breve despedida de Jake. Era claro que ela o havia deixado embaraado, naquela noite, ao retrucar os comentrios de Scot. Justo Scot, que sempre brincara daquela maneira com Jake! Ela, uma forasteira, no entendia nada. No pertencia quele grupo.
Atirou longe os sapatos em uma sbita exploso de raiva.
"No foi culpa minha. Assim como voc, no planejei este beb. Eu..."
Um espasmo agudo trouxe-lhe a razo de volta. O que estava dizendo?
	No  nada disso.  Judy acariciou a barriga.  Eu quero voc. Oh, por favor, fique firme! No posso perd-lo. Voc  tudo o que tenho... tudo o que sempre terei.
Ela caminhava pelo quarto, procurando entender o que fizera de errado. Seguira todas as instrues do mdico. Fizera todos os exames. No haviam conseguido informar o sexo em virtude da posio do beb, mas asseguraram que estava tudo bem. Ento, o que dera errado?
	No  nada disso  Judy sussurrou.  Eu te amo, meu pequeno. Voc foi concebido com amor naquela noite, a melhor de minha vida. Lembra? No Pssaro Azul...
Judy endireitou os ombros. O iate... Se levasse o filho at l, onde fora concebido com tanto amor, ser que ele se lembraria? Ser que tudo acabaria bem?
Sem fazer barulho, Judy pegou o casaco, calou os sapatos e saiu da casa.
Flocos de neve caam quando, dirigindo a Cherokee, ela alcanou a estrada. Sabia que o Pssaro Azul estaria esperando. Jake no navegava nos meses de inverno, embora costumasse ir at l para descansar. Sims sempre deixava o barco em ordem. Ela pegaria a chave com ele.
Mas, quando telefonou para Sims, ningum atendeu. Ser que ele estaria no barco? Quem sabe? Judy s sentia a compulso de chegar l. Fazer seu beb lembrar-se de que fora concebido com amor.
"Por favor, Senhor, faa com que Sims esteja l", ela rogava a caminho do estacionamento.
	Obrigada, meu Deus!  Judy murmurou ao subir a bordo e ver a cabine iluminada.
Tocou a campainha e esperou. Muito tempo. Talvez Sims no estivesse ali e esquecera de apagar a luz. Fora uma louca em ir at l.
Ouviu o som de passos delicados. Uma voz preocupada. Uma voz feminina...
	Jake?  voc?
Apesar do frio, Judy sentiu um calor imenso quando a raiva comeou a aumentar.
	No  Jake  respondeu.   a esposa dele. Judy Mason. Judy tinha direitos, no tinha? Era a esposa dele, no era?
A porta foi aberta.
	Oh, entre!
Judy deu um passo  frente, olhando para a mulher diante dela. Lindos olhos verdes, nariz delicado e lbios bem-feitos. Uma nuvem de cabelos ruivos lhe caa pelos ombros. O visual era etreo, mesmo vestida no roupo azul felpudo que Judy usara naquela noite.
Judy sentiu-se embaraada, como se fosse um balo inflado, s que mais pesada.
Ningum disse nada, mas Judy entendeu o brilho nos olhos verdes que perguntavam: "O que voc est fazendo aqui a esta hora da noite? Espionando Jake?"
	Eu no...  Judy parou, percebendo que estava respondendo a uma pergunta que no fora formulada.   s... Desculpe-me.
No deveria ter ido. No tinha o direito de estar em um lugar ao qual no pertencia. No havia prometido que no interferiria na vida dele?
	Voc  Mel  Judy afirmou, mal percebendo o leve meneio de cabea.
Aquela era Mel, que fizera parte da vida de Jake, antes de Judy. A quem ele teria desposado se no fosse a farsa.
	Desculpe-me, Mel. Irei embora.
	No seja ridcula! No pode sair com esse tempo. Ainda mais em seu estado. O que quer que a tenha levado a...  Ela fez uma pausa, a irritao dando lugar  piedade.  Escute, no sei o que aconteceu, mas est nevando l fora. No notou?
Os olhos verdes, semicerrados, fizeram diminuir a tenso de Judy, que a obedeceu.
	Vamos at a cozinha e lhe prepararei uma bebida quente. Deve estar enregelada.
Judy estava. E sentia-se uma louca, sentada  mesa, mantendo o casaco fechado com as duas mos, olhando Mel encher uma xcara com leite e coloc-la no forno microondas com a maior naturalidade.
Judy surpreendeu-se pela uma descoberta: as dores haviam parado. Ou estivera distrada demais para perceb-las?
Sentia leves pontadas no estmago, mas no eram espasmos. Fizera muito bem em ter ido at l. Tudo voltara ao normal.
	Meu Deus, seus sapatos esto ensopados!
Judy, ainda emocionada com o possvel milagre, viu Mel inclinar-se para descal-los. Os cabelos ruivos brilhantes caram-lhe sobre o rosto como uma nuvem quando ela comeou a massagear os ps de Judy com as mos quentes e macias. Como um anjo faria.
	Que ideia maluca! -Sair pela neve a essa horas da noite! Vocs brigaram? Jake sabe onde est? Lgico que no, ou voc no estaria aqui.  A campainha do forno tocou, e Mel se levantou para pegar o leite.  Quer chocolate?
Judy balanou a cabea, sentindo-se muito estranha. Entendia por que Jake amava aquela mulher. Ela era to bonita e gentil... Tratava-a como se fossem velhas amigas, como se fosse normal haver chegado de repente e a tirado da cama, no meio da noite. Ela nem perguntara por qu!
	Isto a aquecer um pouco  disse Mel, entregando-lhe a xcara.
	Obrigada.
O chocolate quente no aqueceu Judy. De alguma maneira, amortizou-lhe a mente, tornando-a incapaz de pensar. A dor no a torturara nenhuma vez desde que chegara. Tudo iria dar certo. Teria seu beb. E Jake... Jake teria Mel. A bonita e gentil Mel. Lgrimas insistiam em brotar em seus olhos, mas ela procurou evit-las. Mel o faria feliz.
Precisava ter certeza.
	Voc e Jake...  Judy hesitou. Como perguntar  amante do marido se o amava? O jeito era ser direta:  Voc o ama?
Mel pareceu surpresa com a pergunta, mas respondeu de pronto:
	Mais do que a qualquer um na terra.
Aquilo abalou Judy. Por qu? Queria que Mel o amasse, no queria?
	Sim, Jake  muito especial para mim.  Naquele momento, Mel parecia imersa no prprio mundo. Cotovelos sobre a mesa, queixo apoiado nas mos, os olhos vagando pelo espao.
	Se ele no houvesse chegado... Jake salvou a minha vida.
Judy ficou tocada pelo brilho de dor naqueles olhos verdes.
	O que aconteceu?
Mel a fitou, como se, de repente, houvesse se lembrado de que Judy estava ali.
	Ora, por que fui lembrar disso? Aconteceu h seis anos, quando eu era uma tola jovem de dezoito. Havia fugido de casa e era orgulhosa demais para voltar.  Pegou a xcara de Judy e a colocou na mquina de lavar pratos, sem parar de falar.  Eu estava na pior, e Jake chegou e me resgatou.
Como havia resgatado Judy.
	Ele a trouxe para c?
	Aqui?
	Para o Pssaro Azul?
	No! Levou-me para casa e me deu inmeros conselhos. 	Mel apoiou-se na pia, e o humor voltou aos seus olhos.  Estranha essa sua pergunta. Jake sempre teve barcos, e ns fizemos muitos passeios antes daquilo acontecer. Mas... bem, eu passava por uma fase muito difcil, recuperando-me do que acontecera. Se Jake no me houvesse levado para navegar... Acho que foi isso o que me deu coragem e fora para reagir.
	Entendo. Navegar  saudvel.  Judy sabia muito bem disso.
	Muito. Piloto barcos to bem quanto Jake, mas sou muito instvel para ser dona de um. O de Jake  o cu para mim quando estou na cidade. Cheguei esta noite e vim direto para c. Acho que  porque est bem prximo do aeroporto.  Mel deu uma risada spera.  Na verdade  porque o Pssaro Azul  mais um lar para mim do que minha casa. Mesmo quando no saio para navegar.
	Sei. Ento, voc e Jake esto juntos h muito tempo?
	Por toda a nossa vida. H muitos primos no cl dos Mason, mas Jake e eu somos os mais unidos. Talvez porque nossas mes terem sido muito ligadas. Ele  quatro anos mais velho que eu, mas o considero mais como um irmo do que um primo.
	Voc no ...  Judy tentava absorver a informao e entender as emoes que a assolavam. Alegria. Incredulidade. Confuso.  Vocs so primos?!
	Lgico. No me diga que ele nunca falou de mim!
	No!  Judy gritou, abalada pela sensao mista de felicidade e raiva.
"S me deixou usar suas roupas. Deixou-me louca de cime, pensando..."
	Mas que danado! Jake s me falou de voc h pouco tempo, Judy.
Porque no era um casamento de verdade, Judy entendeu. Talvez estivesse esperando at que terminasse para poder contar-lhe.
	O que Jake lhe contou?  Judy prendeu a respirao. Teria confidenciado  prima que cara em uma armadilha?
	No muito. S que se casara e que voc estava grvida.
	Oh!
Judy lembrou-se do dia do casamento, quando Jake dissera: "Tenho amigos e parentes, tambm. No quero que achem que ca em uma armadilha". Por que Judy se sentia to aliviada por ele nada haver contado a Mel?
	No entanto, ns s nos falamos por um breve momento.
Ambos estvamos em Nova York a trabalho, mas, quando nos encontramos, eu j estava de sada para o Japo.
	Japo?  Judy murmurou. Mas estava pensando em Nova York e naquele telefonema. "Sou Mel. Falarei com ele quando chegar aqui."
	Escute, no  melhor telefonarmos para Jake?  Mel perguntou.  Ele deve estar preocupado, imaginando onde voc poderia ter ido.
	No!  Judy gritou de novo, lembrando-se de como ele a olhara naquela noite ao despedir-se. Ela fizera tudo errado. Ao menos, no precisava saber que ela fora at ali.  Jake no...
	No sabe ou no ficar preocupado?
	As duas coisas. Isto , nada disso!  Como conseguiria convencer Mel sem explicar-se melhor?  Ns no... Ns dormimos em quartos separados... por causa do beb. No quero que ele saiba que sa. Se eu voltar agora...
		Que ideia absurda! Jake me matar se deix-la partir! Estamos cansadas. Vamos para a cama.
Judy sabia que Mel tinha razo. Seria perigoso dirigir pelas estradas molhadas e escorregadias. No conseguiria voltar de maneira to silenciosa como quando sara. E, alm do mais, estava muito cansada.
Porm, ficou acordada por bastante tempo. Estava deitada na imensa cama de Jake, as coisas dele  sua volta.
"Este  o Pssaro Azul", disse ao beb. "Esta  a cama do papai".
Tudo daria certo, ela imaginou. Ser que conseguiria convencer Jake de que o amava? Ser que ele queria saber? E ele, ser que a amava?
Judy acordou de um sono profundo quando o marido a sacudiu com gentileza.
	Judy, querida, voc est bem? E o beb?
	Sim  murmurou, ainda sonolenta.  Estamos muito bem.
Jake a segurou pelos ombros e a fitou, com ar severo.
	Ento, diga-me o que est fazendo aqui. Por que saiu s escondidas? Quer me enlouquecer? Quando fui at seu quarto e descobri que no estava l, que sua cama no fora desarrumada, eu...
	Voc foi para o meu quarto?
"Para mim?!" Uma leve chama de esperana se acendeu no peito de Judy.
	Claro que sim. Esta noite, quando voc desafiou Scot...
	Desculpe-me. Sei que no devia ter feito aquilo...
	O qu? Eu adorei! Scot me provoca desde o jardim-de-infncia.
	Sei disso. Mas ele estava brincando, e foi uma atitude estpida de minha parte...
	Haver me defendido? Fiquei muito feliz, pode ter certeza. As coisas que disse me fizeram imaginar que gosta de mim, pelo menos um pouco. Nos ltimos dias tem estado to distante que pensei...
	Oh, Jake, no foi minha inteno! Eu s estava assustada, magoada. A noite anterior  sua ida a Nova York foi to... to...  Judy levantou os braos para envolv-lo pelo pescoo, escondendo o rosto no trax musculoso.  To maravilhosa! Pensei que tudo estava bem entre ns.
	Eu tambm, querida. Eu tambm.  Afastou uma mecha de cabelos do rosto da esposa e a beijou na testa.  O que aconteceu?
Judy contou tudo, o rosto ainda enterrado no peito de Jake. Falou sobre suas dvidas, sua frustrao.
	Eu te amo tanto, Jake, e pensei que no me amasse. Tive de me afastar.
	Meu amor, eu te amo desde... Bem, talvez no desde a primeira vez em que a vi, envolta por todas aquelas rendas e tafets. Mas, com certeza, desde aquela semana no Pssaro Azul.
	Mas voc no demonstrou nada. Ainda mais quando disse que estava grvida.
	Sei disso. Tinha minhas dvidas tambm. Foi timo que tenha engravidado. Caso contrrio, eu nunca saberia o quanto significa para mim, o quanto eu te amo.  Jake segurou-lhe o queixo, forando-a a encar-lo e beijando-a com ternura.  Quer saber o que mais? Sou mais do que agradecido a Ben Cruz. Se ele houvesse se casado com voc... Se no houvesse fugido... Deus! Tem alguma ideia de onde Ben est? Preciso enviar-lhe um outro cheque.
	Jake, acho que j o recompensou o suficiente.  Judy riu, mas tinha de admitir que tambm tinha uma dvida de gratido para com Ben.
	Ei, espere um minuto.  Jake afastou-se e a encarou com olhar terno.  Ainda no explicou por que veio at aqui e quase me enlouqueceu. Procurei por toda a casa, cheguei at a acordar Sadie antes de notar que seu carro no estava l. Ento, Mel ligou. Por que fugiu daquele modo, e justo para c?
	Porque aqui nosso beb foi concebido  explicou, sorrindo.
	E?
	Senti algumas dores durante a noite. Mas j estou bem  acrescentou rpido, ao notar a expresso alarmada do ma 
rido.   que fiquei com tanto medo! Pensei que voc no me queria e que o beb se sentiria rejeitado porque... Bem, lembra-se de como, na primeira vez... Achei que, se viesse aqui, ele, ou ela, se lembraria de que foi feito com amor. A, ento, se sentiria seguro e no nos deixaria.
	Oh, querida!  disse Jake, comovido.
	Funcionou. O beb sabia. As dores passaram assim que cheguei ao iate.
	 um beb esperto. Sabia o que nem ns mesmos saba mos. Mas agora, sim, no ? Onde quer que estejamos, no Pssaro Azul ou em qualquer outro lugar, nosso filho estar sempre rodeado de amor. Do nosso amor.

FIM
